Como uma espécie de antimanual e com a aposta em caminhos menos esquemáticos para o autoconhecimento, o livro “Em Busca de Nós Mesmos”, de Clóvis de Barros Filho, jornalista e filósofo, e Pedro Calabrez, neurocientista, apresenta o diálogo entre as áreas de formação dos autores, acessível a todos os públicos e sem linguagem acadêmica. Foi a maneira que ambos encontraram de falar sobre o saber especulativo, próprio da área filosófica, e o saber científico, com métodos e rigores.
A obra apresenta uma história da evolução do pensamento e do conhecimento humano, desde as ideias de Aristóteles, Platão e Spinoza, entre outros, até as ciências da mente, com foco na abordagem existencial. Desde que o homem passou a ter intelecto e capacidade de reflexão sobre as coisas ao seu redor e sobre a própria existência, a dúvida é uma companheira dessa jornada. De acordo com Clóvis de Barros Filho, a ideia da publicação era mostrar como, em muitos casos, as ciências contemporâneas comprovam empiricamente algumas especulações feitas por sábios em outras épocas da humanidade.
“O livro fala de reflexões sobre a vida, procurando mostrar a necessidade do conhecimento sobre si e, de certa maneira, isso significa que o não traz nenhuma fórmula, dica ou artifício para mostrar um caminho para as pessoas serem mais felizes, pelo contrário, devolve ao leitor a responsabilidade de se conhecer, se analisar e de diagnosticar as condições de vida que lhe sejam mais favoráveis. Portanto, nesse sentido, o livro apresenta uma abundância de exemplos, situações corriqueiras que são mostradas para explicar os conceitos que falamos”, diz Clóvis.
O autor explica sobre excelência, por exemplo, e esclarece que a excelência de um nadador é diferente daquela de um maestro ou mesmo de um professor. Ter essa clareza e não estabelecer comparações, além de conseguir se autorresponsabilizar pelas atitudes, é um assunto fundamental na publicação.
Para Clóvis, ser muito bom em determinada área é tirar de si mesmo e da própria natureza o máximo que for possível para uma realização. Ele acrescenta enfatizando que busca mostrar ao leitor seus próprios caminhos e não “facilitar a sua vida”, diferenciando-se da literatura conhecida como de autoajuda.
Uma questão de percepção
O tema da autoajuda, muito procurado pelos leitores de hoje para resolver os aspectos mais diferentes, do empresarial ao espiritual, sugere diversas formas de compreensão de si mesmo. Clóvis acredita ser importante essa busca, mas pondera que fórmulas possam ser generalizantes. Ele fala sobre livros que possuem listas do que se fazer, como devemos agir em determinadas situações, por exemplo, e lembra que nem sempre essas dicas servem para todos.
“Nesse sentido, o (nosso) livro se diferencia muito desse tipo de literatura. É despretensioso, não pretende servir de guia ou manual de instrução para a vida. Não tenho nada contra os livros ditos de autoajuda e que oferecem fórmulas prontas. Muitas delas, eu acho, devem ser pertinentes para viver melhor. A única coisa que eu desconfio é dessa pretensão de universalidade, de que sirva para qualquer um. Aí acredito que esses livros acabam com o pretexto e tiraram do leitor o peso de tomar decisões, desencorajam o leitor, a quem sugiro se responsabilizar pelas próprias decisões”, diz.
Ele fala ainda de como a nossa condição no mundo nos conduz a pensar da forma que pensamos, dando o exemplo sobre a nossa visão. “O autoconhecimento tem muito a ver com as nossas condições para ver o mundo, ou seja, se tivéssemos três olhos ao invés de dois, provavelmente o mundo se apresentaria de maneira diferente, se tivéssemos olhos como de uma luneta ou microscópio, também seria diferente. Mas, em outras palavras, não há como saber como o mundo fora das nossas condições para percebê-lo e aquilo que percebemos depende de nós”, analisa.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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