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A saudade. Esse é o primeiro sentimento que ocorre ao fotógrafo Alberto Bitar, editor de fotografia do DIÁRIO, quando visita locais inóspitos ou abandonados - sejam eles físicos ou espirituais. Foi assim num depósito de documentos antigos, onde registrou imagens de papéis e prateleiras, caixas de aço, ou mesmo nas suas memórias, como as expostas em suas tantas séries sobre afetos e distâncias. Uma retrospectiva dessa trajetória de lembranças, suas ou de desconhecidos - uma marca de sua produção fotográfica em mais de 20 anos - será exposta na galeria Remp-arts, de 5 a 31 de agosto, em Bordeaux, na França.
Esta é sua primeira mostra individual fora do país e o convite surgiu após a visita da proprietária da galeria à 30ª Bienal de São Paulo, em 2012, onde conheceu as obras de Bitar e resolveu exibir na Europa um apanhado de sua produção. Estará na exposição, por exemplo, uma de suas primeiras obras expostas ao público, do início da carreira, “Fluxo”, foto feita em 1992, que compôs a mostra “Solitude” (1994), além de obras das séries “Hecate” (1997), “Passageiro” (2002), “Efêmera Paisagem” (2009), “Sobre o Vazio” (2010) e, das mais recentes delas, “Imêmores (voos)” (2014) e “Imêmores (docs)”, exibida em Belém em 2016.
“Vejo com felicidade o que já fiz. É muito bom ver o trabalho reunido, pois para mim um acaba sendo a continuidade do outro. E além das questões do tempo, que sempre estão em meu trabalho, tem a questão da saudade. Penso no que as pessoas sentem. O que penso, nem sei se consigo transmitir, mas nas histórias que se cruzam, as pessoas, que conviveram e de certa forma deixaram impregnado o lugar, é o que eu busco. Uma das palavras que mais gosto é saudade. Minhas ideias se voltam para ampliar os trabalhos com outras possibilidades da imagem, outros suportes”, adianta.
O vazio de quem não está
Formado no bojo das discussões sobre imagem e pensamento, na Associação Fotoativa, Alberto Bitar começou a fotografar no início da década de 1990, já com as inquietações que são próprias de quem aprende a fotografar no espaço criado por Miguel Chikaoka. Suas séries, desde as primeiras mostras, são carregadas de reflexões acerca das relações humanas. Ele fala das distâncias, dos vazios, do oco do sentimento de quem não está mais.
Em “Sobre o Vazio”, por exemplo, ele apresenta dois ambientes sem nada dentro, de imóveis distintos, que representam o que ele viveu em cada um desses espaços. O trabalho foi um dos projetos contemplados pelo 11º Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Nesta série, ele apresenta as imagens estáticas em forma de dois vídeos, que levam o mesmo título da série, com quase seis minutos cada, realizados com fotografias capturadas no apartamento onde Bitar viveu com a família durante 25 anos.
Já em “Qualquer Vazio”, ele utilizou imagens feitas em quartos de hotéis em Belém. “Penso sobre a questão da pessoalidade desses lugares, de como podem ser diferentes, em um primeiro momento, mas que com o tempo e a permanência dos habitantes podem guardar memórias, lembranças e saudades”, diz o artista
A poética de tudo o que restou
Nas séries “Imêmores”, Alberto lança seu olhar sobre as paisagens, num primeiro momento feias e sem apelo para imagem, menos em tom memorialístico e documental: importa para ele a poética do caos e da ausência humana no que restou. Do tom pessoal das séries anteriores, ele mantém o conceito sobre a memória do que foi, do que poderia ter sido, de situações que o tempo não apagou - mas agora, o foco, ao invés de ser em pessoas, de forma mais explícita, passa para objetos.
Filho do comandante Brahim Bitar, ele buscou em Belém e em Santarém uma volta à infância por meio do registro de aviões antigos, também em cenários abandonados, para mostrar exemplares que fizeram e ainda fazem história na aviação da Amazônia, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980. Dentre os modelos fotografados por Alberto estão o Bandeirante, Brasília, Cessna 401 e 402, Sertanejo e Skylane.
Já na outra série, são mostrados documentos e o ambiente etéreo e sem vida onde ficam alojados arquivos mortos, que para ele são como depósitos de histórias que sequer parecem ser lembradas. Ele passou a frequentar esses ambientes a partir de uma pauta jornalística. Na visita com a equipe de reportagem, notou que em meio às caixas de aço, prateleiras, pastas e cofres enferrujados e deteriorados, poderia realizar mais uma série fotográfica sobre recordações.
“O significado dessas imagens é o que foi esquecido, não está mais na lembrança, nem na memória. Tenho feito outros trabalhos sobre esse tema, as distâncias, o que fica para trás, o vazio e medo de esquecer. E foi a partir desse pensamento, do receio de esquecer, que comecei a pensar no que de fato já foi esquecido. Vi aqueles papéis, que me fizeram ter novamente essa percepção”, explica.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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