Estação das Docas. 16h30. Um dia do verão paraense. Corpos movem-se dentro de panos transparentes, com água lilás escorrendo pelo tecido, marcando o chão com gotas lilases. As pessoas se mexiam, faziam acrobacias. Ora ficavam estáticas, ora arriscavam-se com movimentos bruscos. Quem foi ao ponto turístico na última sexta-feira, 28, em Belém, ficou curioso. E instigado e reflexivo, e um tanto mais de adjetivos que remetem ao estranhamento de observar algo e não compreender o que está ocorrendo de imediato. Era a performance de dança “Gotas”, do núcleo artístico Maya-Lila, de São Paulo, com os bailarinos Marília Coelho, Melina Scialom e José Guilherme Bergamasco.
Alguns pararam para contemplar. Outros passaram e apenas comentaram algo. Alguns tiraram selfies. Teve gente que tentou falar com os artistas. Uma adolescente supôs ser uma cegonha, “aquele que leva o bebê no bico”, imaginou. Outro adolescente falou que ficou sabendo da performance e foi lá ver qual era a “onda”. Os mais velhos olhavam, mas não entendiam muito. Teve família inteira. Teve ainda artistas paraenses do teatro e da dança que queriam saber mais sobre o espetáculo. 17h30. Mais burburinhos. Desta vez, as pessoas já estavam um pouco mais contemplativas.
“Parece um ser humano fazendo poesia com o corpo. É muito poético e achei muito bonito esse contraste com o céu, com o vento, com o rio, bate o sol. Eles mu- dam o tempo todo de lu gar. Acho que faz a gente refletir sobre o que estamos sentindo, sobre o que está acontecendo. Mas vai de pessoa para pessoa. Acho que é algo em relação à natureza, não é muito nítido o assunto. Consigo sentir que eles fazem o que amam, porque amam isso”, disse a estudante Virgínia Tavares, de 18 anos.
A funcionária pública Socorro Marques Ferreira, que é do Tocantins e veio passar férias em Belém foi até a Estação das Docas para tomar um café e viu a perfomance de longe. Resolveu se aproximar para conferir mais, junto com as amigas. “Elas disseram que eram bonecos, mas quando vimos era gente mesmo. Ficamos procurando a mensagem e não estamos conseguindo entender. Acho que é um protesto contra o caos na saúde. Vi eles pendurados com a cabeça do lado de fora, como se estivessem muito cansados. É o problema da saúde no país inteiro. É a primeira vez que vejo esse tipo de arte, achei legal que aguça a nossa reflexão. Aí vim tirar uma selfie”, contou.
O publicitário Sebastião Soares foi com a filha, Larissa, de apenas um ano, após ver na televisão as imagens dos bailarinos. “Achei muito interessante, que tem a ver com nossa região, gotas, chuva, verão. Chama atenção. Achei muito diferente e prende a nossa atenção. Fiz questão de trazer a minha filha, acho importante ela ter contato com arte e o governo devia investir mais em trazer essas atrações para cá, tem muitos artistas bons aqui também que poderiam usar esse espaço”, observou.
Rubens Machado, mineiro, estava passeando, já tinha tomado umas tantas cervejas, confessou à reportagem, e queria saber o motivo dos corpos ali naquele local. “Aquele regador embaixo, sei lá… não assimilei. Pensei em ser manifestação, repúdio contra a devastação da natureza, do meio ambiente. Queria até conversar, no primeiro momento achei agressivo, uma moça pendurada nessa estrutura metálica, com essa natureza maravilhosa, me impactou. A relação é corpo e natureza? É esse o objetivo? Queria falar com ela, mas ela não me deu nem bola. E olha lá! Já mudou a performance!, observou o mineiro.
(Foto: Irene Almeida)

(Foto: Irene Almeida)
(Foto: Irene Almeida)
Entre linguagens do circo e da dança, muito de delicadeza e força feminina
Marília Coelho, a idealizadora do espetáculo, estava em um festival de arte, em 2010, e viu umas árvores com iluminações que pareciam gotas, em grande formato, e eram muitas, em muitas árvores. “Essa foi a primeira ideia de tentar fazer com o corpo. Por que não? Vamos tentar fazer. E falei com a Danielle Laetano, parceira, que não pôde vir porque teve bebê. Resolvemos experimentar”, conta.
Elas já tinham experiência do circo e da dança, mas sabiam que o que queriam apresentar estava entre uma linguagem e outra. A primeira vez, foram até uma estrada no interior de São Paulo e se penduraram em árvores no meio de uma paisagem sem muita interferência urbana.
“A gente fez a primeira vez em uma árvore, em uma estrada, as pessoas passavam de carro, numa estrada de terra, e viam. Achavam que eram jacas gigantes. Era uma região de muita jaqueira. E primeiro colocamos tecido de circo, depois percebemos que era legal que as pessoas percebessem o corpo, fomos entendendo a delicadeza do trabalho. Tem da energia feminina, do florescer, por isso a cor lilás. No começo usamos vermelho pen- sando na mulher, no sangue, só que vermelho remete à morte, o olho das pessoas está conectado à energia da televisão, que é violência, guerra, mor- te. E não era o que a gente queria. Aí vimos a flor brinco de princesa, que tem esse tom rosa e branco, até chegar no lilás”, diz Marília.
João Guilherme juntou-se às parceiras como convidado. Ele é amigo da dupla desde os tempos de faculdade e ficou honrado em integrar o espetáculo. “Foi muito lindo, vim a Belém há 10 anos, e quando olhei esse guindaste imaginei pen- durar tecido ou trapézio, e conseguimos realizar isso. É a primeira vez que é liberada uma apresentação artística nesses monumentos e que fique o recado. Conheço muitos artistas locais muito bons, que também merecem ter oportunidade de fazer seus trabalhos aqui, afinal é lugar do povo, é público e tem que ter cultura e arte sendo manifesta- da”, opinou.
Já Melina Scialom observou que o vento da orla, à beira do rio, foi o diferencial, assim como o corredor de manguei- ras da Praça da República, onde o grupo realizou a primeira apresentação, na quinta-feira, 27. “O vento das Docas é incrível e muda muito, dá todo um movimento para as gotas e interfere em como a gente se move e gira. Tem a paisagem, a gente fica vendo o céu ao se mover. Foi o lugar em que mais ventou e é uma outra sensação temporal nossa, ver o vento mudando. Os comentários são interessantes. Na praça pensaram em xixi, falaram que era uma manga que ia cair, estávamos nas mangueiras, isso é muito legal”, disse.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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