O pandeiro é o instrumento de Sérgio Krakowski desde muito novo, com 15 anos; e aos 18, profissionalmente. Mas ele fez um percurso acadêmico na música um pouco diferente. Fez faculdade e mestrado em Matemática pura. Determinado momento, decidiu aplicar isso na música através do Doutorado em Computação Musical. Ali desenvolveu softwares para interagir com o computador através do pandeiro.
Nesta terça-feira, 15, essa tecnologia estará presente no espetáculo “Carimbó Multi-Mídia” e interagirá com o batuque dos tambores de carimbó de raiz e elementos do movimento minimalista que tem forte interseção com o jazz contemporâneo. A apresentação ocorre no palco do Teatro Margarida Schivasappa, resultado do Prêmio Seiva de Pesquisa e Experimentação Artística, da Fundação Cultural do Pará, com entrada franca.
“Há mais de 6 anos trabalho com vídeos nas minhas performances e uso principalmente vídeos de falas de pessoas”, conta Sérgio. Com tais ferramentas, ele ativa esses vídeos usando o som do pandeiro, “fazendo com que eu possa ‘tocar’ o conteúdo dos vídeos que deixam de ser falas para se tornar elementos musicais”, explica. Em Belém, a ideia é utilizar esses elementos em conjunto com a percussão do carimbó tocado pelo grupo Raiz de Cafezal.
O percussionista aborda o carimbó pela perspectiva do ritmo, uma vez que a repetitividade e a intensidade dos tambores fazem com que o público se sinta impelido a dançar, “de forma bastante semelhante à situação de transe dos rituais brasileiros de matriz africana”, compara Sérgio. Considerando que a música eletrônica e algumas vertentes da música erudita contemporânea utilizam-se do mesmo artifício de repetição de uma célula rítmica, ele explica.
“É através desse ponto em comum que pretendemos criar a ponte estética entre o carimbó e o jazz experimental”. Morando há quatro anos em Nova Iorque, Sérgio prepara um repertório inédito, acompanhado de sua banda e dos percussionistas do grupo Raiz de Cafezal, que conheceu quando foi convidado para se apresentar com seu projeto solo de percussão e eletrônica no evento “Carimbó no Gotazkaen”, ano passado.
A força primal do carimbó
Ele conta que teve uma aula de História, aprendeu com os mestres como se toca curimbó, maraca, e nessa noite o Raiz de Cafezal tocou. “Ali aconteceu o momento que senti que tinha que fazer algo ligado ao carimbó. Conheço bastante os ritmos brasileiros. Sendo carioca, muita coisa do samba, cadomblé, maracatu – já fui muito a Recife –, mas o carimbó tem uma força primal, uma simplicidade rítmica, que a princípio você acharia banal, mas é muito profunda”.Ele conta que já ouvia música paraense, “super em voga no mundo inteiro”, comenta. Mas que o Brasil “tem essa coisa louca” de se orgulhar de ter uma maravilhosa percussão, no samba, carimbó e outros ritmos, mas na hora de gravar: “a percussão tá lá baixinho, como se fosse atrapalhar”. Assim, o contato que teve por áudio, vídeo, não deu a ele a mesma impressão do ao vivo. “Quando você está na frente do curimbó, que o negócio está pegando fogo, é diferente”, garante.
Com a premiação no Seiva, da FCP, Sérgio quis ainda juntar ao carimbó tanto à tecnologia desenvolvida quanto a linguagem jazzística, na qual está imerso em Nova Iorque. “Eu fui para Nova Iorque para isso, desenvolver contato com a linguagem experimental do jazz. E me interessou ligar ele a essa força muito primal do carimbó, essa percussividade muito simples, minimalista, algo que muita gente no jazz e da música contemporânea lida”.Morando em Nova Iorque há quatro anos, Sérgio e seu trio desenvolvem uma extensa pesquisa dessa linguagem contemporânea, tendo se apresentado em teatros tais como o Museu Guggenheim de Bilbao (Espanha), o clube Joe’s Pub em Nova Iorque e o Museum of Moving Image, como parte do NY Electronic Art Festival.
Além de já ter tocado com artistas como Maria Bethânia, Lenine, Beth Carvalho, B Negão e Hamilton de Holanda.“Eu vou pelo som. Quando ouvi o Raiz de Cafezal tocando, sabia que era sério. O show será entre duas pessoas, um de Nova Iorque, um de BH [Belo Horizonte], e dois percussionistas de Cafezal, que tiveram que rever a agenda de pesca e de roça para poder vir para cá. Eu fico emocionado de poder vivenciar isso. Sempre acreditei que a música apaga as fronteiras e nesse caso é explícito”, diz ele.
O resultado será um espetáculo original, com música inédita e também muita experimentação eletrônica. “Alguns elementos de eletrônica que a gente desenvolve e muita improvisação. É esse o tipo de espetáculo que o público vai encontrar. Muito carimbó, isso garanto, muito tambor. E tambor em lugar central, não lá no fundo fazendo acompanhamento. Ele é o astro. Com o pandeiro – meu tambor – a dialogar com curimbó e maraca”, diz Sérgio.
CONFIRA
Show “Carimbó Multi-Mídia” com o músico Sérgio Krakowski e o grupo Raiz de Cafeza
Quando: Hoje, às 20h
Onde: Teatro Margarida Schivasappa (Av. Gentil Bittencourt, 650, esquina com Rui Barbosa - Nazaré)
Quanto: Gratuito
Informações: (91) 3202-4315 ou e-mail skrako@gmail.com
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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