Depois de todo o “imbróglio com a cultura”, como bem colocou a empresária Joanna Martins, em entrevista ao programa “Argumento”, da RBA TV, o Centro Global de Gastronomia resolveu pedir ao Governo do Estado uma mudança de endereço. Ao invés de ocupar a Casa das Onze Janelas, eles querem agora instalar seu Polo Gastronômico no Parque do Utinga. O motivo seria todo o alvoroço que se formou em torno na extinção do Museu de Arte Contemporânea, que ocupava a Casa há 14 anos, para dar lugar ao projeto encabeçado pela entidade, formada pelo Instituto Paulo Martins (do qual Joanna faz parte), o Instituto Atá (de Alex Atala) e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia.
Em entrevista ao jornalista Mauro Bonna, na última segunda-feira, 14, Joanna contou que a entidade passou um tempo parada e agora está retomando suas ações. A mais recente foi entregar, no início deste mês, “um memorando de interesse social, documento formal, para o Governo do Estado” pedindo a instalação do polo, que ela chamou de Centro de Empreendedorismo, no Parque do Utinga, localizado na avenida João Paulo II, em Belém, e atualmente fechado para reforma. De acordo com Joanna, a nova proposta foi estudada junto ao Ideflor-bio, entidade que administra o parque.
“Aquela ideia foi totalmente abortada”, afirmou sobre o projeto de instalar o polo na Casa das Onze Janelas. Disse ainda que a mudança foi uma decisão unânime dentro da entidade. “Não é interesse nosso criar um empreendimento, que na verdade é para trazer desenvolvimento e melhorias, e não para causar problemas assim”, declarou, sem dizer que rumo será dado ao Museu e à Casa. “Não sei se já tem nem decisão a respeito disso”, afirmou.
Casa amarga falta de investimento
Os artistas que integram o Movimento Casa das Onze Janelas agora aguardam um posicionamento oficial. “Essa retirada [do polo] tem que se comemorar, mas eu diria que é meia comemoração enquanto o Governo não se compromete com a Casa”, critica Val Sampaio, artista que integra o Movimento.O grupo, que conta ainda com artistas como Mariano Klautau Filho e Makiko Akao, denuncia que desde 2014, quando o governo e o Instituto Atá começaram a conversar sobre a proposta do polo gastronômico, a Casa começou a passar por cortes, mudanças e abandonos.
Os editais para fomento de pesquisa, novas exposições e atividades educacionais sofreram cortes e extinção. O horário de funcionamento, que era das 8h às 20h, passou a ser apenas pela manhã. “Foi uma atitude silenciosa, perniciosa, em que você vai criando a ideia de que o Museu não funciona, não tem uso”, denuncia a artista.Para driblar isso, artistas começaram a atrair olhares através de petições públicas, solicitações junto a órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de articular atividades de ocupação do espaço. Nomes como Tadeu Chiarelli, diretor da Pinacoteca de São Paulo; Heloisa Espada, coordenadora Departamento de Artes Plásticas do Instituto Moreira Salles (IMS); e Rubens Fernandes Júnior, diretor do Departamento de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, de São Paulo chegaram a declarar apoio ao Movimento.
“A gente sempre colocou que existe um processo de inanição da Casa. Você percebe logo ao entrar que não há mais manutenção da pintura, do forro, de itens básicos como papel higiênico! Não adianta abrir museus e não manter. O Museu funciona hoje por iniciativa dos artistas e educadores”, diz Val, e compara à situação do Ver-o-Peso. “Desde que a população rejeitou aquela proposta da Prefeitura, a feira está lá abandonada, o que mostra que ou é o que o governo quer ou não é nada. Vão deixar a Casa das Onze Janelas minguar para depois vir com uma proposta que, ou a gente aceit,a ou a Casa morre de vez”, lamenta.
Museu funciona, mas ainda está extinto
O decreto nº 1.568, de junho de 2016, não só expulsa o Museu do complexo Feliz Lusitânia ao criar o Polo Gastronômico, como o torna “extinto”. Agora ele pode até não ser mais retirado, mas continua legalmente sem existir. “A lógica é que o Governo voltasse a investir na manutenção do museu, mas ele não está mais aplicando recursos lá”, afirma o advogado Raimundo Dickson, que integra o Movimento Casa das Onze Janelas e tem acompanhado o caso junto à OAB.
“A informação que tenho é que, segundo o próprio promotor José Augusto Potiguar, da Procuradoria da República no Pará, o Governo recuou em relação a retirada do Museu. A gente vai aguardar a posição oficial do Governo para saber que medidas tomar”, completa Dickson. Procurado através de sua Secretaria de Comunicação, o Governo não respondeu aos questionamentos da reportagem do DIÁRIO.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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