A psicanalista e professora Nadiá Paulo Ferreira, de 71 anos, é uma apaixonada pelo amor. Primeiro, as palavras dos poetas a encantaram e ela optou por fazer o curso de Letras. Depois, quis entender o assunto do ponto de vista da psicanálise - e a partir daí começou a estudar a intersecção entre esses temas. Sem abandonar, no entanto, a análise clínica.
Do papel para o consultório, ela constatou que os versos são as histórias de vidas de muitos de nós: problemas entre pais e filhos, desilusões amorosas, desejos reprimidos. E é ao lado do analisado que se buscar respostas ou caminhos para solucionar os dilemas do coração - que por vezes persistem uma vida.
De passagem por Belém para o lançamento do seu livro de poesias “Cantos de amor sem fim” (Luziê Editora) e para uma conferência realizada pelo Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise seção Belém, ela conversou com o caderno Você. Confira:
P: O que é o amor para psicanálise e em que ponto se difere do amor do senso comum, do amor romântico?
R: O amor deveria ser aquilo que amenizaria o que caracteriza a vida enquanto tal, porque viver implica em saber aproveitar os momentos felizes, mas a vida é cercada de perdas, luto, sofrimento. E o que traria um certo conforto ao viver seria o amor. Então, em princípio o amor para a psicanálise não é aquilo que vai contribuir para um sofrimento a mais. Mas seria aquilo que tornaria ou faria melhor a alegria de viver. O amor para a psicanálise implica que não há o amor, existem amores, e o que é o amor para a maioria das pessoas é uma modalidade de amor muito em voga do século 12 até agora, que é amor associado ao sofrimento. Existem várias vias desse amor associado ao sofrimento, um é o amor-paixão, é aquele que acredita que quando se ama se encontra a outra metade, de dois se faz um. Como isso é verdadeiramente impossível, a não completude de um no outro já é uma fonte de sentimento.
A outra fonte, o amor como sacrifício é o amor cristão, que dependendo do sacrifício, pode ser o extremo, abrir mão dos seus desejos, do que você quer em prol de alguma coisa. Em torno disso, há sofrimento e o sacrifício é às vezes da própria vida.
P: E como a senhora começou a se interessar por esse tema, o amor, e porque é tão importante se discutir hoje, na era dos relacionamentos virtuais?
R: Inicialmente o que me interessou no amor foi que mesmo antes de eu ir para a faculdade fazer o curso de Letras, sempre amei a poesia.
O tema continua sendo contemporâneo na tradição poética, o amor. É lógico que foi isso que me fascinou.
Mas gostaria de falar coisa que acho que é uma ficção, que é pensar que o amor é uma coisa diferente do que era no século
19, 16. O amor é o mesmo, enquanto o que muda é a roupagem desse amor.
Essa busca do amor como milagre de tudo, inclusive como antídoto das dores impossíveis de serem eliminadas da vida. Por exemplo, a dor da morte. Toda vez que perdemos pela via da morte um parente querido, sofremos, e o amor não é antídoto desse sofrimento que a psicanálise chama de luto, que é necessário para que a pessoa volte a se interessar pela vida e poder amar mais uma vez. A internet não mudou isso, as pessoas passavam horas e horas trancadas no quarto escrevendo cartas de amor. Hoje elas ficam diante de uma tela digitando.
Mudaram os recursos e o modo pelo qual isso acontecia era diferente, não se fala de cartas de amor. Fiquei muito chocada há uns 40 anos, quando fui à São Luís no Maranhão e se falava muito das cartas denúncias. As mulheres recebiam essas cartas denunciando adultérios dos maridos. Isso dava uma confusão muito grande . hoje em dia se faz pelo Whatsapp.
P: Em que sentido a psicanálise auxilia nessas questões, na identificação de um comportamento que não seja adequado, sobre o amor, por exemplo? Como o analista atua nesse sentido?
R: Olha, o que a psicanálise sustenta é que o sujeito sofre porque renuncia ao que é mais próprio de si. E o que há mais próprio de si é o que ele deseja. E geralmente a cultura e a educação vem acompanhada de uma exigência que é: renuncie seu próprio desejo. É o pai que é médico e quer que o filho seja médico. Imposições familiares ligadas a um destino do que se espera que esse filho seja e lógico que esse esperar dos pais é o que eles queriam ser e ter e deslocam isso para os filhos e a psicanálise ajuda aquele que sofre por renunciar ao seu desejo e vai demandar psicanálise para ver se ele consegue dar essa virada e não se submeter ao destino que estabeleceram para ele. Isso não é fácil. É difícil encontrar alguém que faça o que realmente gosta.
P: A senhora faz análise há muitos anos. O amor é sempre uma questão central na vida das pessoas?
R: Sim, é muito importante Ouço muito. E esse amor não é o que a gente está pensando da infelicidade, das mulheres com homens, dos relacionamentos. Essa demanda do amor é o amor infantil, toda criança deseja ser amada, e uma criança que não foi desejada isso já é uma marca terrível que ela pode superar, daí importância da psicanálise. A importância do amor está aí.
P: E como isso é visto por Freud?
R: Freud quando fala sobre amor descobre que a marca indelével desse sentimento que se chama amor é a ambivalência, a relação do amor com o ódio. Freud tem alguns textos em que está preocupado com o narcisismo. O ódio antecede o amor do ponto de vista do afeto. Colocado assim fica meio estranho. É interessante saber do que o Freud identifica como ódio, é uma espécie de repúdio.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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