Em um bate-papo no Rio de Janeiro no início deste mês, durante o lançamento do LabSônica, laboratório de experimentação sonora e musical que está com edital de residência artística aberto para consulta, alguns nomes importantes para a cena musical do país debateram a atual cadeia produtiva da música, permeada pela tecnologia, novos modelos de consumo e caminhos para a criação. Com o lançamento de um novo estúdio recheado de aparatos tecnológicos, a tecnologia – incluindo aí a internet – foi colocada como tema fundamental. Afinal, ela veio mesmo para salvar a lavoura de quem é produtor, autor? .
Para Lucas Santtana, cantor e compositor baiano, ela ajudou pelo menos em um aspecto. “Se a gente for pensar nos estilos musicais que tiveram grande visibilidade recente, como é a cúmbia na Colômbia, o baile funk no Rio ou o tecnobrega em Belém, eu estou falando de músicas que alcançam muita gente e que foram feitas com quase nada de tecnologia”, destacou.
Claro, ainda há quem reivindique a força que as gravadoras tinham para levar um músico às rádios e trilhas sonoras de novelas. Mas, na opinião de Lucas Santtana, as gravadoras também funcionavam como um filtro onde pouca gente conseguia realizar o que estava querendo.
“Era um filtro perverso, eu acho. E acho que precisa ser entendido que mudou todo o panorama. Não existe mais aquele caminho que todo mundo vai fazer igual. Cada artista vai ter que entender quem ele é – e aí falando mercadologicamente –, qual o seu case, o que ele quer fazer e como vai fazer. Cada um vai ter que inventar a sua história. A tecnologia só ajudou e concretizou”, disse, em uma mesa que reunia Martin Giraldo, do Red Bull Station; Fernanda Paiva, da Natura Musical; Fabiana Batistella, da Semana Internacional de Música (SIM - São Paulo); e Rodrigo Lariú, jornalista e fundador do selo indie Midsummer Madness.
Momento de gerar redes colaborativas
Com toda essa tecnologia vem à cabeça aquela ideia do gênio solitário fazendo a própria música em um estúdio caseiro. Tudo bem, no Pará não faltam exemplos, como Jaloo, que sozinho no computador de casa trilhou seu caminho para ser DJ, cantor e produtor musical. Mas, na era das redes sociais, o encontro também faz parte desse novo panorama da música, coloca Fernanda Paiva, do programa Natura Musical. “Quando a gente lança a Casa Natura, em maio, em São Paulo, é muito nesse sentido de que o artista precisa ter espaço para se apresentar. E mais do que um palco, ele precisa de uma cena formada. Nos novos editais, passamos a falar não só de criação de novo disco, mas de formar cenas regionais a partir da parceria com festivais. A gente tenta acompanhar essa mudança no mercado enxergando que vivemos um ambiente de economia colaborativa, economia compartilhada e de novos valores”, analisou.
Fabiana Batistella, da “SIM”, tem 20 anos trabalhando com música e também vê um cenário bem diferente. “A gente tinha muito bem definido o que era mainstream e o que era underground – que era tudo aquilo que não entrava na gravadora e a produção era muito difícil. Com a tecnologia isso dá uma misturada. Eu senti, durante muito tempo, que a preocupação do artista era ‘agora que a tecnologia permitiu eu ter meu disco gravado, eu preciso me preocupar com a distribuição, promoção, preciso que ele chegue à mão dos críticos, preciso tocar nos festivais, acessar esse mercado de alguma forma’”. Isto, diz ela, era o reflexo de um cenário em que havia muito material para se ouvir e essa foi a grande preocupação durante muito tempo.
O que ela vê hoje, a partir da “SIM”, que reúne músicos vindos de várias partes do país e do mundo, incluindo muitos artistas e produtores paraenses, é uma preocupação com o lado artístico, com a qualidade de produção. “Vejo até alguns estúdios e produtores artísticos como núcleos de concetração e movimentação de uma nova cena. Tem vários que conseguem realmente ajudar nesse processo artístico, que não é só musical”, explicou.
Burlando as regras e pensando fora da caixinha
Até mesmo desafios como a criação de público poderiam ser superados se as cenas conversassem, acredita o jornalista Rodrigo Lariú. Em entrevista com o produtor da banda Calcinha Preta, ele conheceu uma estratégia que lhe deu o que pensar. “Ele [o produtor] me contou que, como não conseguia espaço nas rádios, antes de levar uma banda ou artista para fazer show ele ia naquela cidade e distribuía o disco para as pessoas, e o show dava supercerto. E eu pensei: poderia usar isso pra promover as bandas indies do meu microsselo. Tem muita tecnologia humana para usar também, o que uma cena faz pode funcionar para outra”, disse.
Leo Feijó, produtor e servidor da Secretaria de Cultura do RJ, explicou que, mesmo na esfera pública, a criação de uma cena e de público são desafios permanentes. “Hoje queremos criar um plano de resgate da música ao vivo. A gente percebeu que não só aqui, mas em outras cidades do mundo, como Barcelona, Londres, viver de música estava cada vez mais complicado. A tecnologia ajudou a gravar, a distribuir, fazer o marketing também, mas não ajudou a ampliar o circuito de palcos, pelo contrário, a gente tem visto uma crise nesse aspecto”, lamentou.
E quem ajuda a construir essa cena mais forte, disse mais uma vez Rodrigo, é a tecnologia humana: “Muitas vezes a pessoa ama música, quer trabalhar com isso e não necessariamente vai ser compositor, intérprete, instrumentista. Somos nós, produtores, críticos, jornalistas”. Lucas Sattana completou: “A cadeia produtiva da música é gigante, não é só o palco. Para um show de uma hora são umas 15 horas de preparação e de muita gente trabalhando junto. E é o cara que burla as regras chegando antes na cidade para distribuir o disco também”.
O futuro
Assim como o teatro e o cinema se reinventaram, Fernanda Paiva afirmou que a música também chegou ao seu momento de reflexão. Fabiana Batistella destacou que as limitações são o que trazem as maiores superações. “Foi na época de crise dos anos 2000 na indústria fonográfica que vieram tecnologias que nos levaram às plataformas de hoje, como o Spotify. Alguém teve que sair da caixinha e pensar em novas possibilidades e formatos”.
Martin Giraldo acredita que o grande desafio vai além do mercado. “Os últimos 200 anos são uma anomalia na nossa relação com a música, porque a musica é uma celebração conjunta. Todo mundo da tribo sabia tocar o tambor, bailar, celebrava junto. De repente, temos palcos e agora uns se reúnem e outros observam. Precisamos ter conversas maiores para tomar decisões, porque não podemos apoiar a música para solucionar problemas de homens brancos de 50 anos. Eu não quero ajudar as pessoas que fazem dinheiro, eu quero que todos bailemos juntos. Isso é a música. Precisamos proteger essa magia, o business não”, finalizou.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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