A maré do Pará está para peixe, ou melhor, para os livros. Com edições independentes, de pequenas editoras e fruto de editais de estímulo, vários títulos de autores locais chegaram ao mercado recentemente, em livrarias físicas, bancas de revista e na internet.
Caso de José Maria Leal Paes, que acaba de lançar “O Salto do Salmão”, a partir da iniciativa dos amigos, para publicar “cartas, droptextos, e-bilhetes, fotos, poemas e fragmentos de poemas ou torpedos”, ou seja, um bocado das palavras que perpassam sua vida e a profissão de jornalista. O livro é uma metáfora sobre o tempo e a sobrevivência do homem frente aos desafios cotidianos e banais. Por isso, ele lembra da vida do salmão e sua subida nas corredeiras, enfrentando perigos, para se perpetuar.
“O jornalista navega por um mar de palavras. Por vezes a gente se afoga, mas outras milagrosamente elas se transformam em prosa e poesia, coisas bonitas. O livro envolve textos de 2000 para cá e é uma maturação. Começa com uma carta de minha mãe sobre o tempo e termina com o poema ‘Surto Adeus’. Por que o salto do salmão? Por que são poemas de imensa ironia diante da fugacidade da vida”, diz o autor. Andreev Veiga lançou no início do mês o livro de poesias “diálogonuvem”, por meio do Prêmio Dalcídio Jurandir de Literatura, da Fundação Cultural do Pará (FCP). “O livro apresenta o meu modo de ver o mundo, de pensá-lo como uma dimensão de partilha, essa é a natureza de toda a arte. Muitos dos poemas que compõem esse livro, dentro de um processo de 10 anos, ficaram pelo caminho, sobrevieram os que achei melhores. E representa um processo de caminhar dentro da linguagem. O título é aberto às pluralidades e remete à condição polissêmica da poesia, caleidoscópica, um campo de encontro num lugar onde nada está definido”, diz o autor sobre o livro, que ganhou apresentações dos poetas Antônio Moura e João de Jesus Paes Loureiro.
PEQUENA EDITORA
Na última sexta-feira, 22, Toni Moraes, que também é editor na Monomito Editorial, lançou o romance “O Ano em que Conheci Meus Pais”, sua obra de estreia após ter contribuído com outros textos em antologias. A ficção, que flerta com casos verossímeis, foi escrita para saciar o desejo de contar uma história que se passa no Pará, no período da redemocratização do Brasil, pós 1989. O drama histórico, como define o autor, apresenta a saga de Jonas, um jornalista paraense radicado em São Paulo, mas que volta ao estado para saber mais sobre seus pais, já que tornou-se órfão na infância. “Ele parte Belém em busca da história que ouviu sobre quem são seus pais. Trato sobre os desdobramentos da redemocratização e do período mais severo dos anos de chumbo, a partir do Ato Institucional nº 5. Esse tema sempre me despertou interesse, li livros, vi documentários sobre dramas pessoais e reparei que não temos muita produção sobre esses desdobramentos aqui no Pará”, explica Toni Moraes.
O autor conta que tinha o enredo na cabeça, mas, apesar de não ter personagens reais, fez uma pesquisa histórica para construir o texto. “Temos que ter cuidado histórico para que tenha credibilidade, mesmo que seja ficção”, comenta o autor e editor, que é arquiteto por formação, mas agora segue no mercado editorial.
Para Toni, a dinâmica das editoras pequenas está começando a fluir e as empresas têm mais opções de se articular com autores e o público. A aposta é feita a partir de um modelo diferenciado, com proximidade cada vez maior com quem escreve e com quem lê. “O modelo tradicional de editoras é predatório. A gente, como editora independente, procura espaços alternativos de distribuição, de lançamento, de eventos, e meios diferentes de fomentar essa cena da literatura. Estamos pensando em organizar um evento em São Paulo para fazer uma espécie de mostra de autores paraenses, o que está sendo produzido no Pará e do Pará”, adianta.
Distribuição é o maior entrave para escritores
O ator Adriano Barroso também carrega o seu “Ato - Paixão Segundo o Gruta” por onde circula. E também tem se articulado para fazer diversos lançamentos, mesmo que em curtos períodos de tempo, aqui mesmo na capital paraense, com a intenção de levar até o público que gosta de arte e quer saber mais sobre a história da arte cênica no estado. Contemplado com a Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros, o livro saiu após sete ano de pesquisas e entrevistas.
“Lancei por conta própria, pela editora Marques. Tinha uma proposta de escrever sobre os 50 anos do Gruta, que é um dos mais longevos grupos do país e tem uma história bonita para contar. Nasceu em Icoaraci e veio para Belém, teve espetáculos proibidos e foi perseguido pela censura”, diz. Mas a missão a qual se propôs não é nada fácil. “O grande entrave para nós, escritores que estamos nascendo agora, é a distribuição. É uma grana que sai do nosso bolso e que não teremos de volta, é custoso, é difícil, mas é importante também. O livro está na Livraria Fox e na minha mochila, por onde ando”, comenta. No próximo dia 1º de outubro, ele faz mais um lançamento no espaço Casa Velha 226. Ano que vem ele lançará outro título pela editora Empíreo, sediada em São Paulo, mas comandada pelo paraense Filipe Nassar Larêdo.
Pela mesma editora, Filipe lança mais um livro também de seu pai, o escritor Salomão Larêdo, no próximo dia 27, na Fox, em Belém. “As Icamiabas – Lenda das Amazonas, Paiz das Pedras Verdes – Romance de Mulheres Guerreiras Sem Marido e Seus Muiraquitãs”, seu 41º título, as icamiabas são mulheres que, não aguentando mais serem violentadas e desrespeitadas criam um outro país, cujo nome na verdade, refere-se ao livro de outro paraense, Raimundo Morais, autor da década de 1930.
No início do mês, o escritor Breno Torres lançou “Pesadelos Infaustos” sobre como os tormentos na hora do sono podem ser terríveis. Ele questiona o que de profano, ultrarromântico, caótico e celestial ecoa nas narrativas dos andarilhos dos mundos, num estilo narrativo experimental, elegante e poético, que provoca reflexões no leitor ao longo de dez histórias. O destaque do gênero Terror da editora Arwen - no primeiro semestre de 2017 - foi escrito ao longo de quatro anos de pesquisa e apresenta, em cada uma de suas histórias, uma criatura consagrada do mundo da fantasia. Para o escritor, a obra, por ter diversas histórias, acaba abarcando diferentes gêneros. “‘Pesadelos Infaustos’ tirará o fôlego através do medo ou do deleite – ou, como é provável, através de ambos –, só nos resta conferir”, comenta o graduando em Letras, professor de Língua Inglesa, que já teve contos publicados em antologias, e que tem em “Pesadelos Infaustos” sua primeira publicação solo.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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