Com uma pesquisa iniciada há quatro anos, Alberto Silva Neto e Claudio Barros se aproximaram de questões ligadas às cosmogonias e mitologias da Amazônia. “A gente queria mergulhar em um teatro que fosse mais próximo da cultura dos povos da floresta”, diz Alberto. O que foi pensado e desenvolvido ao longo dessa aproximação será mostrado através de “Pachiculimba”, que, mais do que um espetáculo, é uma cerimônia a ser realizada em quatro sessões, a partir desta quarta-feira, 4, no quintal de uma casa localizada na praia do Paraíso, na Ilha de Mosqueiro.
Com apresentação e transporte oferecidos de forma gratuita ao público, financiado pelo Prêmio de Pesquisa e Experimentação da Casa das Artes, recebido este ano, a nova criação cênica do grupo paraense Usina nasce ainda do interesse da dupla por processos de atuação e xamanismo. “‘Pachiculimba’ é um trabalho em que a gente se propôs a ultrapassar alguns parâmetros muito fortes das formas teatrais convencionais, de base ocidental”, diz Alberto, referindo-se ao teatro de representação de personagens, de diálogo, de base dramática. “A gente foi para um lugar que é uma fronteira do próprio teatro e nos coloca como artistas e pesquisadores num lugar desconhecido para nós”, afirma.
O ator em cena, Claudio Barros, em nenhum momento representa um personagem ficcional, afinal não haverá história ficcional sendo contada. O que existe, segundo Alberto, é a tentava de o ator performer, no lugar onde está, a paradisíaca Mosqueiro, se relacionar com os seres que habitam o lugar e a partir disso começar a construir a sua presença cênica.
Ousado na forma como se relaciona com a própria linguagem, a dupla prefere então chamar “Pachiculimba” de cerimônia. “O estudo do xamanismo existe no mundo inteiro, mas na América do Sul é muito ligado a práticas de cura, o que a gente popularmente conhece como pajelança”, comenta Alberto. O xamã tem as habilidades de sair do próprio corpo, ocupar o lugar de outros seres e, a partir disso, compreender de maneira mais profunda a realidade que as pessoas vivem. Logo, a pesquisa do Usina é uma tentativa de aproximação da prática de ator de teatro e o xamã.
“Ali buscamos compreender os processos de atuação no teatro também como uma prática de autoconhecimento e de conhecimento e amadurecimento espiritual, onde o ator procura, também, de certa maneira, uma espécie de cura de si”, afirma Alberto.
Mas como fazer isso? Para começar, Claudio passou a buscar conexões através de um estado de sensibilidade profunda, como seria colocar no próprio corpo as sensações da natureza de outros seres. “Como é ser uma árvore? Como é ser passarinho? O que as pessoas são convidadas a ver é um ator que deixa sua alma ser atravessada pelos estímulos que o lugar oferece”, diz ele.

Ator manipula objetos pessoais para ativar sua memória e trazer sentimento verdadeiro à cena (Foto: Alberto Silva Neto/Divulgação)
Espetáculo quer provocar reflexão
Ao invés de escolher uma literatura, uma texto, em “Pachiculimba” Claudio Barros acessou fontes muito primais das suas experiências de vida. “A cerimônia é ato de reviver sua própria trajetória diante das testemunhas, os participantes da cerimônia. Algo muito forte e que vai muito fundo na espiritualidade do próprio ator. E a gente deseja que toque também as pessoas que vão presenciar a cerimonia”, diz Alberto Silva.
Mesmo sem uma narrativa cênica, não espere por uma apresentação sem palavras. Parte do espetáculo explora obras como a poesia de Manoel de Barros. “Mas não no sentido de declamar o poema”, adianta Alberto. O que a dupla propõe é explorar as possibilidades sonoras da palavra, sua capacidade rítmica, refletindo também sobre novas formas de pensar a palavra no teatro.
Outro texto é o fragmento de “A Queda do Céu”, do xamã e porta-voz dos Yanomami Davi Kopenawa. Ela é uma profecia apocalíptica, de que o céu vai desabar e o planeta acabar. “Na verdade, essa é a forma que essa etnia encontra de refletir sobre o esgotamento dos recursos do planeta, provocados principalmente pelo mau uso da civilização branca, ocidental, capitalista. Essa fala do Davi é muito atual e contundente diante do que estamos vendo hoje”, descreve Alberto.
Para diretor e ator, a cerimônia é também um chamado a todos os brancos para que pensem melhor sobre maneira como estão regendo suas existências. “O ‘Pachiculimba’ é uma criação cênica que faz um discurso de ‘des-ocidentalização’ e descolonização do nosso pensamento. Porque talvez através desse caminho a gente consiga ser verdadeiramente humanos. É um convite a botar o pé no freio. Desligar o celular, voltar a ser capaz de perceber que a gente tem uma relação muito profunda com os outros seres que habitam a natureza”, convida Alberto.
Toda a cerimônia é realizada com a manipulação de objetos – vasos de plantas, peças de crochê – que pertenceram ou estabelecem algum vínculo afetivo com a família de Claudio Barros, de modo que a relação com estes o afete verdadeiramente durante a atuação. O próprio termo que dá nome à criação vem de uma música da memória de infância do ator-performer ativada durante um procedimento do processo criativo.
Não perca!
Performance “Pachiculimba”
Quando: Dias 4 e 5, 11 e 12 (quartas e quintas), sempre às 15h30
Traslados: Saída pontualmente às 15h30, da Casa das Artes (ao lado do Santuário de Nazaré) e retorno às 21h para o mesmo local.
Para assistir: Envie uma mensagem de e-mail (pachiculimba@gmail.com) ou WhatsApp para (91) 98810-3040, informando o dia em que gostaria de participar
Quanto: Gratuito (espetáculo e traslado)
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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