Duas obras com um pé no Pará estão entre as finalistas do Prêmio Jabuti este ano. Um deles é “Castanha do Pará”, publicação independente de Gidalti Oliveira Moura Jr., que concorre na categoria “História em Quadrinhos”, pela primeira vez oferecida no Jabuti. O outro é “Vozes Ancestrais”, selecionado na categoria de livro juvenil, escrito por Daniel Munduruku, autor indígena nascido no Pará com mais de 50 livros publicados e já vencedor do Prêmio Jabuti anteriormente. A lista de livros que concorrem à final do principal troféu literário do país foi divulgada ontem.
Escrito e desenhado por Gidalti Jr, “Castanha do Pará” surgiu das vivências do autor em Belém - ele é mineiro, mas se considera paraense, porque morou aqui por muitos anos. O romance gráfico conta a história do personagem Castanha, criado com um corpo de menino e cabeça de urubu. Desde o amanhecer, ele circula pelo mercado do Ver-o-Peso em busca de abrigo, alimento, atenção e diversão. Entre pequenas contravenções e molecagens, vaga sem destino em meio à fartura de alimentos e ao visual exótico do bairro da Cidade Velha, mas ninguém parece notar a sua aparência. Ele faz parte de um grupo de cidadãos invisíveis, que simplesmente fazem parte da paisagem.
“Relacionei os tradicionais urubus da região com o menino abandonado, criando assim um design híbrido, menino e bicho. Mostrando ainda a intimidade do personagem, como a família, a rua onde morava e os amigos de infância, antes da rua virar a sua casa favorita”, contou Gidalti.
Em julho, o livro já tinha sido indicado ao HQMix, prêmio que é considerado o “Oscar” do quadrinho nacional, em uma categoria que destaca a produção independente. Com edição bem cuidada, o livro foi produzido a partir de financiamento coletivo captado pela internet.
Já o livro “Vozes Ancestrais”, de Daniel Munduruku, foi lançado em abril pela editora FTD e resgata as tradições dos povos indígenas, apresentando, de forma didática, dez contos de diferentes povos: Paiter Suruí, Tikuna Magüta, Maraguá, Tabajara, Krenak, Kaingang, Nambikwara, Kadiwéu, Umutina e Kurâ-Bakairi. Entre as principais temáticas estão explicações para a origem do mundo, a relação entre ser humano e natureza, e rituais.
“A escola está parada no tempo, muito embora sua função seja trazer novos elementos para que os jovens, sempre ávidos por renovação, possam pensar meios de fugir aos pré-conceitos que carregam consigo. O caminho ainda é longo, enquanto os indígenas continuam sendo pouco compreendidos e aceitos”, observou o autor, em entrevista à editora Ática Scipione.
Capa do livro “Vozes Ancestrais”, de Daniel Munduruku (Foto: Divulgação)
Finalistas Romance
Na categoria “Romance”, os finalistas do Jabuti são “A Tradutora”, de Cristovão Tezza; “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, de Elvira Vigna, escritora morta em julho que era uma das principais vozes da literatura contemporânea brasileira; “Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho; “Descobri que Estava Morto”, de João Paulo Cuenca; “O Marechal de Costas”, de José Luiz Passos; “O Tribunal da Quinta-feira”, de Michel Laub; “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende; “Soy Loco por ti, America”, de Javier Arancibia Contreras; “Machado”, de Silviano Santiago; e “Tristorosa”, de Eugen Weiss.
(Diário do Pará)
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