Do palco, as palmas tomam conta do ambiente e fazem a chamada de alerta. Aos poucos, sem perceber, o público pulsa ao compasso do grupo. O som de tambores tradicionais e a marcação de passos indígenas vão, lentamente, compondo a sonoridade da festa. Logo o canto do grupo preenche o salão: o show do “Na Cuíra pra Dançar” já começou.
Iniciado em junho de 2015, o conjunto lança o seu primeiro EP nesta sexta-feira (15), no Espaço Cultural Apoena. O trabalho traz as cinco canções autorais que compõem o trabalho gravado no Estúdio Floresta Sonora, em Belém. A versão digital do EP “Na Cuíra pra dançar”, chega ao público com suas letras de celebração e resistência, em defesa da cultura e dos povos da Amazônia.
“O meu boizinho pintou o rosto de vermelho”, diz o primeiro verso de “Kararaô”, de autoria de Kleyton Silva. A quinta faixa do Ep, premiada com o segundo lugar no Festival de Música Candanga (FINCA) de 2012, na Universidade de Brasília (UNB), faz referência ao território de mesmo nome da nação Kayapó e à luta dos povos indígenas do Estado do Pará contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.
Na toada, o “boizinho” pinta o rosto de vermelho como um sinal de que partirá para o enfrentamento em defesa de suas terras. A manifestação do boi-bumbá é resignificada para trazer a dimensão da cultura popular para o centro da canção. Diferente de uma representação superficial, a festividade dos bois é tratada aqui como expressão da identidade de uma população. Com o alagamento de locais sagrados para os Kayapó, tal como para os Munduruku, entram em guerra valores e visões de mundo. O boi cantado pelo “Na Cuíra” não aceita a vitória daqueles que “querem ver a mata virar mar”.
Em “Margarida”, canção já lançada em formato de single em fevereiro deste ano, é o mundo místico das encantarias da Amazônia que ganha o foco. A letra descreve uma menina que dança com uma saia de sete fitas coloridas. A imagem, que remete a um ambiente de sonhos, parece fazer menção às entidades presentes em religiões de matriz africana e do catolicismo popular. Lulu, nome que aparece no último verso, é uma menina encantada. O canto para ela, que também se chama Margarida, é mais uma pista que nos aponta os interesses do grupo. Além da defesa política, as crenças dos amazônidas são também um território em disputa: o “Na Cuíra”, no lirismo da canção, assume o seu lado.
RESISTÊNCIA
“Resultado de carinho, dedicação e esforço”, como diz Kleyton Silva, o trabalho é fruto de um percurso de associações colaborativas e resistência por parte dos artistas. Isso revela a dificuldade encontrada pelos músicos para produzirem e lançarem seus trabalhos em Belém. Na trajetória de três anos, o Espaço Cultural Apoena tem sido um parceiro importante para a difusão das canções e continuidade do grupo. Por isso a escolha do local para o lançamento.
O músico JP Cavalcante acrescenta, ”O NCPD é reflexo de tudo que a manifestação cultural popular vive em Belém do Pará, é dela que retiramos e criamos um repertório do jeitinho que o caboclo paraense gosta, em suas várias maneiras de se expressar, a dança é onde todos se libertam, se encontram, vibram e nascem da música a melhor maneira de brincar, essa celebração é o Na Cuíra ao vivo e nas cinco faixas do ‘EP’ não é diferente”.
Além de “Kararaô” e “Margarida”, o Ep traz também a toada “Tulipas Azuis” e os xotes “Depois da chuva” e “São João”. Com distribuição pela Ná Records, o álbum teve como técnicos de áudio Léo Chermont e Dan Bordallo, mixagem de Carlos Valle e masterizado por Rodrigo Sanches no Rootsans Estúdio. Tocaram nas gravações: Kleyton Silva (voz e violão), JP Cavalcante (voz e percuteria), Daniel Serrão (Baixo), Milton Cavalcante (guitarra) e Armando de Mendonça F. (violino). Na apresentação ao vivo, contará ainda na formação atual da banda. Danilo Rosa na guitarra, Luan Lacerda no baixo e Daniel Serrão atualmente assumindo teclados e voz.
SERVIÇO
"Na Cuíra pra Dançar" lança seu primeiro EP
Dia: 15 de junho, às 22h
Local: Espaço Cultural Apoena ( Antônio Baena, esquina com a Duque de Caxias, 450 (altos )
Ingressoas: R$15,00.
O EP estará disponível em todas as principais plataformas digitais (spotify, deezer,), sob o nome Na Cuíra Pra Dançar
Mixagem: Carlos Valle
Gravação realizada no estúdio Floresta Sonora
Masterizado por Rodrigo Sanches no Rootsans estúdio
Distribuição pelo selo Ná Music
(Assessoria de Comunicação/Laíra Mineiro)
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