Neste domingo, 5 de abril, Marabá celebra 113 anos de emancipação política. Mais do que uma data administrativa, o aniversário convida a um mergulho nas águas dos rios Tocantins e Itacaiúnas, os verdadeiros arquitetos da cidade. Para o historiador Wellington Mota, a compreensão da "metrópole do sudeste paraense" é impossível sem observar a relação umbilical de seu povo com a dinâmica fluvial.
"Assim como várias cidades amazônicas, Marabá é fruto de uma construção onde o rio era o principal meio de locomoção e o motor da economia", explica Mota. Em um período de isolamento terrestre, o fluxo migratório — composto majoritariamente por nordestinos e goianos — consolidou a ocupação no emblemático "Pontal", o encontro das águas. A fixação dessas famílias dependia das balsas de buriti, que aproveitavam a correnteza para transportar vidas e mercadorias até o ponto estratégico que se tornaria o núcleo urbano.
Veja também:
- O segredo por trás dos 167 mil atendimentos que mudaram a saúde
- Marabá sedia seminário estadual para integrar ações contra a tuberculose no Pará
- Marabá celebra 113 anos com festa e tradição no encontro dos rios
O nome que nasceu de uma esquina
A origem do nome "Marabá" guarda uma curiosidade que mistura comércio e literatura. Segundo Mota, a denominação surgiu da "Casa Marabá", ponto comercial de Francisco Coelho, estabelecido no Pontal. Admirador do poeta maranhense Gonçalves Dias, Coelho batizou seu negócio em homenagem ao poema homônimo, que narra a história de uma indígena de traços mestiços, rejeitada por sua diferença.

"As pessoas diziam: 'vou lá no Marabá', e o nome pegou", conta o historiador. A escolha acabou por se tornar profética para a identidade local. "O poema fala de alguém que é mistura, que se sente filho do 'outro' nos processos de imigração. Nós adotamos esse nome e construímos uma relação histórica e cultural muito bonita com ele."
A Enchente Como Mestre de Obras
Se para muitos a subida das águas é vista apenas como tragédia, para o marabaense ela é um elemento formador. "As enchentes não trazem apenas implicações; elas constroem a nossa cultura", afirma Mota. Ele cita a histórica cheia de 1926 e a memorável inundação de 1980 — que coincidiu com o auge do garimpo de Serra Pelada e atingiu uma população de mais de 100 mil pessoas.
A vida econômica da castanha, por décadas o pilar da região, dependia do ciclo das águas: era no período da cheia que a coleta se intensificava. Nas fotografias históricas, é comum ver balsas de buriti amarradas às cumieiras das casas, permitindo que os trabalhadores permanecessem próximos às matas.

Essa convivência forjou o que a geografia urbana chama de adaptação. Bairros como Cabelo Seco e Santa Rosa apresentam uma arquitetura de sobrevivência, com casas de dois pisos onde a vida sobe conforme o rio avança. "O traçado urbano da Marabá Pioneira foi moldado pelas águas. A comunidade entendeu até onde o nível chegava e ocupou os pontos altos. Hoje, o marabaense sabe viver com o rio. Isso faz parte da nossa memória coletiva", conclui o historiador.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar