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MEMÓRIA

O dia em que o Pará barrou o lixo nuclear do Césio-137

Documentos relembram a estratégia secreta do governo federal para usar a Serra do Cachimbo como depósito atômico

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Imagem ilustrativa da notícia O dia em que o Pará barrou o lixo nuclear do Césio-137 camera O caso é lembrado por historiadores como um dos maiores exemplos de defesa da soberania estadual e preservação ambiental | Reprodução

Um episódio marcante da história política e ambiental do Pará completa mais um capítulo na memória do estado. Em 1987, o território paraense quase se tornou o destino final das toneladas de rejeitos radioativos do acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia. O plano, conduzido sob sigilo pelo Palácio do Planalto, só foi interrompido após uma mobilização sem precedentes liderada pelo então governador Hélio Gueiros.

O Plano Secreto na Serra do Cachimbo

Na época, o presidente José Sarney autorizou a remoção urgente do material contaminado para a Serra do Cachimbo, no sul do Pará. A região abrigava uma base da Aeronáutica, hoje denominada Campo de Provas Brigadeiro Velloso (CPBV), em Novo Progresso, que possuía infraestrutura para testes nucleares e armazenamento de urânio.

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Investigações da época revelaram a existência de um poço de 320 metros de profundidade, revestido de concreto, construído sob um custo de US$ 5 milhões. O local era peça-chave do "Programa Nuclear Paralelo" brasileiro, iniciado anos antes, e seria o repositório ideal, na visão do governo federal, para o lixo atômico de Goiânia e de Angra dos Reis.

"O Pará não é lata de lixo"

A reação do governo estadual foi imediata e agressiva. Ao ser informado da destinação do lixo, que já estava sendo carregado em caminhões rumo ao Norte, Hélio Gueiros publicou uma carta aberta à nação com o título: “O Pará não é lata de lixo do Brasil”.

Em um embate direto com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Gueiros sancionou uma lei estadual proibindo o depósito de qualquer material radioativo em solo paraense, legislação que permanece em vigor até hoje. "O Pará não vai ser destinatário de lixo nenhum", enfatizou o governador na ocasião, mobilizando bancadas parlamentares, entidades empresariais como a Fiepa, líderes religiosos e ambientalistas.

O Desfecho

A pressão popular e política surtiu efeito, e as cerca de 6.000 toneladas de lixo radioativo não chegaram a cruzar a fronteira do estado. Anos depois, já na década de 1990, o presidente Fernando Collor selou simbolicamente o fim do projeto nuclear na Serra do Cachimbo, jogando uma pá de cal no poço que outrora ameaçava transformar a Amazônia em um cemitério atômico.

O caso é lembrado por historiadores como um dos maiores exemplos de defesa da soberania estadual e preservação ambiental da história da Região Norte.

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