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DAQUI TE ESCREVO

Era um homem comum, como todo monstro capaz de atrocidades

Como é estar diante de um assassino que comete uma das piores atrocidades possíveis? O jornalista e escritor Anderson Araújo narra um encontro frente a frente com um criminoso desse tipo, na coluna Daqui te Escrevo, publicada nesta quinta-feira (12).

quinta-feira, 12/05/2022, 13:00 - Atualizado em 12/05/2022, 14:19 - Autor: Anderson Araújo

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Imagem ilustrativa da notícia: Era um homem comum, como todo monstro capaz de atrocidades
| Arte: Emerson coe e Thiago Sarame

Íamos calados no carro. Jesus, o fotógrafo, estava comigo. Até ele, sempre ligado nos 220 volts, estava com a energia baixa. Minutos antes, ainda dentro da redação, havia atendido o chamado. Um delegado, que não vou lembrar do nome, pediu para ir até a delegacia entrevistar um criminoso que iria se entregar.

O policial, mesmo cedo, parecia animado. Ele estava pessoalmente empenhado em divulgar a notícia. Fosse para expor seu trabalho à frente do caso ou por satisfação pessoal de ver a cara do preso estampada no jornal, o homem pulou da cama e se deu o trabalho de ligar naquele horário agreste. Por sorte, eu havia acabado de chegar. Talvez hoje tivesse deixado o caso para mais tarde e seguido o percurso normal da ronda dos amaldiçoados repórteres da cobertura criminal.

Descemos na delegacia de Ananindeua, um prédio sem graça, relativamente novo, pintado de bege e azul-marinho. Portas abertas, ninguém na recepção. Estava assombrado, vazio por causa da troca de plantão. Os que terminaram já haviam saído e os que iniciariam ainda não tinham chegado. Fui até a sala de descanso para ver se tinha sobrado algum investigador. Ninguém. Entrei em outros espaços até que encontrei um homenzinho, sentado no banco de correr de madeira. Ele estava encolhido, como se estivesse com frio.

- Bom dia. O senhor trabalha por aqui?

Era pequeno, frágil e estava sujo e amarrotado. As calças de tergal enlameadas e a camisa social de mangas um pouco sujas de terra. Percebi o cabelo de caracóis desgrenhados e lanhos nos braços. Ele me respondeu:

- Não. Tô esperando o delegado.

- Ah, é? – E me sentei ao lado dele. – Ele marcou a essa hora?

- É, vim me entregar.

Era ele o criminoso esperado.

Estava sozinho com ele, porque Jesus ficou no carro mortificado e sem muita paciência. Me identifiquei como jornalista e perguntei se ele poderia me contar o que aconteceu. O suspeito me deu um leve sorriso sem ânimo e me devolveu com um sinal positivo. Ajeitei minha posição no confessionário improvisado e o silêncio da manhã se expandiu, como se estivéssemos mesmo no interior de uma igreja. Nenhum ruído no ambiente, nem dos detidos que dormiam no xilindró na parte de trás do prédio

Segurou as mãos de unhas imundas e roídas e começou a me contar.

Sempre fingi que anotava para entrevistados. Só para dar alguma credibilidade quando não usava um gravador. Lembrava-me sempre das respostas quase que letra por letra nas reportagens. Sempre tive uma boa memória. Com aquele homem, entretanto, preferi não fingir e apenas ouvi a voz balbuciante e anasalada.

Depois de relatar o que tinha feito, fiquei calado por alguns segundos. A dor da fome do meu jejum ficou mais aguda e senti um leve sufocar. Retomei em seguida e pedi para que ele detalhasse a história. Era evangélico, como toda a família dele, e parecia muito calmo naquela manhã de 2011, se não engano.

- Quando vi já tinha feito. Tinha uma voz me dizendo faz, faz, faz. Era o diabo. Eu fiz.

Ele vivia na casa da irmã, que morava no Distrito Industrial de Ananindeua, num barraco de restos de madeira e chapas de zinco e chão de terra, em área insalubre, numa pobreza evidente.

- Nunca tinha acontecido antes – disse.

- Tu te arrependes?

- Arrependo. Não deveria ter feito.

- Está com medo de morrer?

- Sei que vou morrer. Já tentaram me matar.

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O homem passou os três meses anteriores foragido, em uma pequena vila ribeirinha no Acará, cidadezinha perto de Belém. Foi pra casa de um parente e já estava quase integrado por lá. Acordava cedo, cuidava da pequena plantação e de galinhas, comia antes do meio-dia e dormia a sesta. Às vezes, via o dia raiar sem ter pregado os olhos. Falava com pouca gente, sempre sério; se ria, era um riso envergonhado de quem está proibido de acessar qualquer felicidade. Pensava em ir pra mais longe do que a casa da irmã, de Belém e até do Brasil, no entanto, nem sabia como, tampouco havia dinheiro. Já não havia antes. Depois do crime, as coisas só pioraram.

Na quinta-feira anterior, na boca da noite, uma mulher da comunidade, amiga da família, entrou no casebre onde ele havia passado a viver e o avisou:

- O pessoal descobriu. Amanhã de manhã, eles vão se unir pra te matar. Não fui eu que te falei isso.

Ciente do risco, ele não esperou. Vestiu o que viu pela frente e se embrenhou no meio do mato. Atravessou pra Belém pelo rio, de carona com um barqueiro desconhecido. Na capital, conseguiu ligar para a delegacia e avisar que se entregaria, sem advogado, sem ninguém.

Foi como o encontrei. Desamparado, exausto, mal-cheiroso, angustiado e sem esperança nenhuma.

Tentei entender os motivos. Ele só gaguejava e falava no demônio, como se não acreditasse que ele poderia ter cometido ato tão reprovável, como se olhasse em perspectiva para o dia do ocorrido e não se visse na cena. Era um homem comum, como qualquer monstro capaz de atrocidades. Temente à ira de Deus, o Deus que nunca intervém pelos imolados, entretanto não tolera os que recorrem à lâmina. Ao falar do mal como algo fora de si, eximia-se e se punha ao lado do bem, ainda que com as mãos sujas de sangue, sem considerar as zonas cinzas oriundas da pobreza exterior e interior do ser humano que se tornou ao longo dos anos, afetado pelo meio e por tudo que lhe havia ocorrido até aquele dia maldito.

- Istrupei e matei. Depois enterrei. Debaixo da cama...

E a sentença boiou durante a conversa toda naquela sala vazia de luz branca repleta de fantasmas desavisados, que iam à delegacia em vez do tribunal pedir por justiça.

Olhava aquele homem sem nenhum ódio, interessado honestamente na história. Não sei se o horário daquele encontro me fez perguntar menos do que anos depois tive vontade. Nunca serve de muita coisa saber as razões objetivas de um crime, porque não chegam nem perto de todo mau sentimento que o explicam como um todo. Até alguém cometer uma barbaridade há um longo caminho, culminado na devolução de dor e ódio individual como brutalidade, vingança, incompreensão e desejos inconfessáveis. Além de que condições de temperatura, pressão e conjuntura também protagonizam desgraças.

Não pensou na própria irmã? Como havia sido a relação dele com a própria mãe? Será que teve ou conheceu o próprio pai? Como foi a infância daquele sujeito? Como se via no espelho antes de tudo? Pensou na prisão enquanto aquela maldade era gerada dentro de si bem antes do dia de executá-la? Porque, embora haja o impulso e o imponderável, a ideia do ato se constrói antes. Tudo que é real, antes já foi imaginação.

A vítima era o sobrinho dele, um menino de três anos. Tudo aconteceu em poucos minutos, em um dos dias em que mãe e o pai saíram para ganhar o pão, como sempre faziam, e deixaram a criança a sós com o tio. Após a violência, o homem sumiu no mundo. Por culpa, por medo da morte e para não enfrentar a dor dos que foram forçados a encarar aquele horror doméstico.

- E agora? O que vai acontecer?

- Não sei.

O delegado chegou, de camisa social branca e a cara amassada. Cumprimentei-o. Ele olhou o homem e o reconheceu. Me pediu um tempo para falar com o acusado e depois me chamou. Entregou algumas informações acerca do inquérito e da prisão.

Chamei Jesus no carro e o homem concordou em ser fotografado.

- O que ele fez? - Perguntou-me Jesus.

- Faz a foto que te conto depois.

Flash, flash, flash, flash, flash.

Apertei as mãos do homicida e o agradeci antes de sair.

Tive pena da criança, que a mim não tinha rosto nem corpo. Era uma criança-ideal, um menino modelo de menino pobre, indefeso, violado, um menino estatístico do arrabaldes da metrópole. Uma compaixão diferente por ele da que senti pelo criminoso, aquele homem minúsculo, mesquinho e vulnerável, à beira do abismo, humano, demasiado humano; ele, sim, material, carne e osso, diante de mim, afogado em seu mar de fel, residente do inferno, cujas portas foram arrombadas por ele mesmo para ser recebido pelo dono do estabelecimento.

Bora embora, disse a Jesus.

O sábado estava iluminado e muito quente. Ainda tinha as seccionais da Cidade Nova, Paar, Marituba, Icoaraci e Marambaia para apurar as tragédias do dia.

Permanecemos calados até que pedi:

- Preciso de um café.

No dia seguinte, a notícia se perdeu, espremida entre outros fatos horrendos da seção de Polícia, reduzida ao mínimo para caber os anúncios publicitários do jornal de domingo.

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Anderson Araújo é escritor e jornalista da equipe do DOL e escreve às quintas-feiras,

A crônica de hoje foi publicada originalmente no Blog Daqui te Escrevo.

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