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DAQUI TE ESCREVO

Carta a um quase amigo em tempos de ódio na Internet

A coluna de Daqui te Escrevo, escrita pelo jornalista e escritor Anderson Araújo (@daquitescrevo), trata (quase) sempre de temas de Belém e é publicada regularmente no DOL. Leia, comente e compartilhe nas suas redes!

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Imagem ilustrativa da notícia Carta a um quase amigo em tempos de ódio na Internet camera Arte: Emerson coe e Thiago Sarame

Olá, tudo bem?

Venho por meio destes mal traçados pixels te informar que continuo vivo. Sim, sobrevivi ao ódio dele que foi tanto que, se ele estivesse diante de mim com uma arma, descarregaria inteira na minha cara. Armas estão na moda e o ódio também. Diferente dos textos longos para Internet – esses já nasceram fadados ao fracasso desde a era dos blogs, ali pelos anos 2000 e alguma coisa. A propósito, foi dessa época que ele e eu nos conhecemos.

Hoje somos respeitáveis senhores empertigados em nossas posições nessa floresta densa e traiçoeira, que é a classe média belenense, na qual me embrenhei munido apenas do meu parco vocabulário e de um facão desamolado de ironias. Ainda me lembro que, nesse ambiente venenoso, sempre me senti um tanto quanto deslocado e que sempre fui visto como um estrangeiro que vive distante do seu lugar de origem, como uma espécie de invasor - De onde esse cara apareceu? Talvez algum deles tenha se perguntado quando surgi do fundo da baixa probabilidade estatística de ascensão social no Brasil, confirmada pelo IBGE.

Sim, o ódio dele provavelmente vem dessa época, mas, juro, não era bem minha intenção. Era meu humor azedo somado à minha juventude, que já vai longe. Tudo era apenas brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo, e quando me vi assim já estava provocando raiva e rancor em um punhado de gente. Mal sabia eu que esses sentimentos criam raízes tão profundas e duradouras como as das sumaumeiras. Tanto que muitas amizades desse tempo já se foram e quase ninguém se lembra mais. Já os desafetos, os odiosos desafetos... estes, de vez em quando, reaparecem com o dedo em riste.

E, neste episódio, foi precisamente o que ocorreu.

Das profundezas de um passado não muito distante, mas também nada recente, ele retornou. Estava mais velho, alquebrado, sofrido. Como ocorre com todos nós, a vida não lhe pisou devagar, não levou em consideração que o coração é frágil, como um beijo de novela, como diz o Belchior. Tornou-se, então, o dito cidadão respeitável em sua posição, que eu realmente não fazia a menor ideia qual era, porque há anos não tinha contato, nem interesse, nem notícia.

Os tempos eram outros, agora vivíamos a era dos extremos, sem muito espaço para meio termos ou para nossas discussões paroquiais de outrora, que caracterizaram nossa ingênua fase de troca de farpas públicas. A Internet havia mudado, eu havia mudado, a vida havia mudado. Mas ele estava ali, pronto para negar que as velhas rixas também se apagam com o tempo.

Como o personagem de Saramago, saí da ilha para ver a ilha de fora e, enfim, pude ver a ilha como um todo e compreendê-la um pouco melhor. Nossa ilha que é, na verdade, uma península reduzida a uma província, na qual todo mundo quer saber com quem você se deita e nada pode prosperar. Eu havia retornado, depois de longa temporada. Sem orgulho, sem bagagem ou dinheiro, mas com consciência de que voltei outro - sair da ilha sempre nos transforma.

Quando o inesperado retorno dele se deu, já tínhamos há muito nos tornado ilustres desconhecidos, que haviam travado algumas batalhas um contra o outro num passado remoto, sem que eu tivesse levado tão a sério essa querela passada ao tempo que ela se desdobrava e, menos ainda, tempos depois, quando já não me lembrava exatamente como havia terminado e, menos ainda, começado.

Para minha surpresa, tantos anos depois, a ânsia dele de mantê-la, de reavivá-la, veio à tona num dia qualquer. Eu já estava desligado desses assuntos e do meu antigo contendor – que, na minha pouca imaginação, provavelmente tinha se tornado um burocrata ordeiro, que faz e refaz o mesmo percurso dia após dia para se alimentar de tédio e regularidades.

Mas nem a falta total de intimidade – afinal, até para brigar é preciso de alguma – impediu que ele retomasse as velhas provocações com uma fúria que, de fato, me surpreendeu. Fúria do tipo que já tinha visto recair sobre mim em outras ocasiões, a ira dos que se sentem impotentes em não poder me reprimir com um soco bem dado e procuram outras maneiras de calar em mim o que nem mesmo eu consegui calar ao longo desses anos (E olha que eu tentei!). Era a gana de quem foi ferido e agora quer ferir a qualquer custo, que precisa que o outro não exista, era o ódio, o velho ódio que sobrevive milagrosamente ao tempo, tornando-se cristalino, depurado, rijo. O ódio bélico e fálico característico da performance da virilidade. O ódio escarrado na cara.

Ele quis retomar as antigas picuinhas, palavra saborosa em Belém, mas eu já era outro, como eu bem expliquei e meu odioso amigo redarguiu, como se eu ter mudado fosse um absurdo, uma farsa, algo que não se fazia nem com inimigo capital. Só poderia ser coisa de alguém tentando exalar superioridade moral, coisa dos que querem estar acima disso tudo, coisa de santo do pau oco. Talvez até fosse, pensei, que eu nunca fui flor que se cheire.

Contudo, mais tarde, refleti, e vi que nem era o caso.

Era apenas uma constatação óbvia de que não somos mais quem éramos e estamos mesmo muito aí para o grego Heráclito e o tal rio, no qual não podemos nos banhar duas vezes porque, logo depois, o rio já não é mais o mesmo, tampouco o homem que nele se banhou. Agora, meu querido, imagina ser eu o mesmo eu, aquele das tretas da década passada, das ofensas trocadas, dos sarros tirados, das pequenas e mesquinhas guerras de outrora.

Deixei passar o rio, a treta, o meu velho rival.

De minha parte, lamento não atender as expectativas de hoje e de ontem. O que posso dizer é que velhas cobranças precisam ser realizadas no tempo certo, embora algumas contem com extensos prazos que podem chegar até o último dia de nossas vidas. A maioria não dura– ou, ao menos, não deveria durar - um arroto depois do terceiro ou quarto copo de cerveja.

Mesmo aquelas raivas irracionais cultivadas em segredo e só reveladas na explosão têm curto prazo de validade, mesmo as cerzidas em ódio lento e fumegante, no ódio individual e personificado, que, no nosso tempo, está imiscuído no ódio maior e coletivo que contamina o ar e empresta substância ao espírito do tempo e destrói nossa civilidade para discutir questões de poder. Às vezes, nem esse ódio primário se salva com o tempo, que conduz a vida indiferente aos nossos sentimentos.

Se pudesse responder ao meu querido desafeto, faria como o poeta chileno Pablo Neruda, com uma adaptação aqui e outra ali, e lhe diria de coração tranquilo, como semivelho que sou: confesso que vivi e fiz algumas merdas e, muito provavelmente, deixei por aí algumas dívidas, como a que meu iracundo adversário acredita existir – dívidas que eu nem reconheço como legítimas. Muitas delas ficarão em aberto.

Devo, não nego e, para pagá-las, me entenderei com a vida, esse imperdoável Serasa que nos cobra nas horas mais impróprias, mas às vezes faz um descontinho camarada.

Espero que estejas bem e satisfeito com essa fofoca mal contada que lhe envio e esqueça tudo que escrevi até aqui, logo após lê-la, porque eu esquecerei.

Anderson Araújo é escritor e jornalista da equipe do DOL e a coluna Daqui te Escrevo é publica (quase) sempre às sextas-feiras.

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