Está claro que existem técnicos e técnicos. Uns são mais voltados para o trabalho e as atividades internas dos times. Outros se expõem perante o mundo, abrem o verbo, abraçam bandeiras e incomodam bastante, para o bem ou para o mal.
Marcelo Oliveira, bicampeão nacional com o Cruzeiro, está obviamente no primeiro grupo. Surgiu para o futebol como meia-atacante habilidoso e insinuante naquele Atlético-MG do final dos anos 70, onde também pontificavam Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro e outros bambas. Do Galo ele migrou para o Botafogo, onde continuou a desfilar seu futebol de grandes qualidades.
Como treinador, começou no Coritiba meio de mansinho. Trabalhou bem e chamou atenção dos grandes clubes. Foi contratado pelo Cruzeiro, onde há dois anos realiza um trabalho magistral. Silencioso, à mineira, mas de resultados incontestáveis. Sem abdicar da técnica primorosa e do estilo vistoso que honrou como atleta.
Lá mesmo em BH, outro técnico também chama atenção. Levir Culpi se consolida como a figura mais surpreendente da temporada. Dado como em fim de carreira há até cinco anos, o comandante do Galo ressurgiu no ano passado para reconstruir um time que havia sido devastado por um fiasco sem precedentes no Mundial de Clubes.
Com aquele jeitão de síndico, Levir limpou a área, afastou a banda podre e fez do Atlético-MG um dos times mais empolgantes da temporada. Sem reforços de peso, conduziu o time à decisão da Copa do Brasil com viradas espetaculares sobre Corinthians e Flamengo.
No Brasileiro, mesmo sem brilho maior, o Galo não faz feio. Foi operado vergonhosamente diante do Internacional na última rodada, com um penal escandaloso não marcado pela arbitragem. Ao final, questionado pelos repórteres, Levir falou do jogo e evitou reclamar. Rara atitude de um treinador brasileiro. Só por esse gesto já merecia um troféu no festa de fim de ano que a CBF organiza.
O outro canto do ringue tem Felipão como expoente maior. Depois das cenas grosseiras no jogo com o Cruzeiro em Porto Alegre, quando ele e Ivo Wortmann fizeram até ameaças à arbitragem, o veterano treinador voltou a fazer das suas na partida contra o Corinthians em São Paulo.
Atacou a arbitragem por supostos erros que teriam beneficiado os donos da casa. Árbitro que beneficia o Corinthians não é propriamente uma novidade, mas o juiz Ricardo Marques e seus auxiliares não erraram (se é que erraram) por má fé.
Felipão lançou no ar a suspeita de que não interessa à CBF e à Rede Globo ter somente representantes gaúchos e mineiros na Libertadores da América. Querem garantir o Corinthians no torneio. Não duvido que seja verdade. Aliás, não duvido de mais nada. Daí a imaginar que isso acontece nestas últimas rodadas é no mínimo incorrer em ingenuidade.
Caso alguma trapaça tivesse sido urdida nos subterrâneos do futebol para fazer a vontade de CBF e Globo, certamente não seria deixada para as rodadas finais, quando quase nada pode ser feito para alterar o ritmo do pagode. Acontece que Felipão é Felipão. Mercurial e raivoso normalmente, precipitado quase sempre.
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