E o Palmeiras ficou com o grande prêmio. Seus dirigentes esbaldam-se na comemoração de uma vitória sobre tradicionais rivais. O alvo de tanta cobiça era o atacante Dudu, ex-Grêmio, que também era pretendido por 10 entre 10 grandes clubes brasileiros. O leitor há de perguntar quem é o boleiro tão valorizado assim da noite pro dia, como se fosse a versão brazuca de Lionel Messi.
Pois esse maravilhoso jogador marcou apenas três gols no recente Campeonato Brasileiro, rendimento pífio se comparado até ao de reservas das principais equipes - o corintiano Luciano, por exemplo, balançou as redes em seis oportunidades.
Além do Palmeiras, Corinthians e São Paulo se engalfinhavam há semanas pela aquisição de Dudu. E haja o povo curioso por saber informações do misterioso futebolista que teve a incrível média de 0,08 gol por partida na Série A.
Alan Kardec, do São Paulo, jogou um número menor de jogos e fez o triplo de gols. Ainda assim, Dudu se transformou subitamente na sensação do começo da temporada. Vi vários jogos do Grêmio e Dudu me pareceu um atacante arisco e insistente, nada além disso.
Culpa do jogador? Claro que não. Os responsáveis pela criação de um mito a partir do nada são obviamente os próprios meios de comunicação, ávidos por encontrar pauta no período de entressafra do futebol profissional. Além deles, com igual importância no processo, aparecem os empresários do jogador e os dirigentes meia-boca, que praticam um antiquado modelo de gestão nos clubes.
Fica a sensação de que qualquer embusteiro é capaz de impressionar cartolas de grandes com alguns dedos de boa prosa. Dudu foi intensamente propagandeado aos gigantes de São Paulo a partir de notícias plantadas em jornais e na internet, atribuindo a ele virtudes até aqui não visíveis. Os programas esportivos na TV passaram a bombardear imagens de um único gol dele, marcado contra o Criciúma.
Como os são-paulinos morderam a isca e manifestaram interesse, oferecendo 3 milhões de euros ao Dínamo (da Ucrânia), seus espertos agentes passaram a fazer leilão. Deu certo. Logo, os corintianos entrariam no jogo e chegaram a 3,6 milhões de euros na oferta. Mas, depois de várias propostas e contrapropostas, os dois rivais se cansaram e desistiram da transação. Devem ter notado, a tempo, que estavam sendo levados no bico. Curiosamente, em meio a isso, o Grêmio em momento algum demonstrou maior esforço para segurar o atleta.
Veio então o Palmeiras, ávido por mostrar força e recuperar proeminência no futebol paulista. Entrou de sola na negociação e de sexta-feira a domingo conseguiu amarrar a contratação do badalado Dudu. Especula-se que vai pagar algo em torno de 4 milhões de euros por 60% dos direitos econômicos do jogador. Como a coroar a patuscada, seus dirigentes saíram trombeteando sagacidade sobre os concorrentes, mas a vitória pode custar muito caro lá adiante.
O próprio Palmeiras já serviu de ponte para um falso craque, tão festejado como Dudu, há poucos anos: Kêirrison, o K9, que virou bala de festim em poucos meses de atividade no clube. Acabou negociado, mas ficou o sabor amargo de uma farsa midiática que não se sustentou. Jovem ainda, K9 desfila hoje seu mediano futebol com a camisa do Coritiba.
Aguardemos pelas façanhas do supervalorizado Dudu.
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