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GERSON NOGUEIRA

O filósofo da aplicação

Teatral, com pausas friamente estudadas, Tite se transformou em fenômeno nas entrevistas coletivas. Seu sucesso já data de algum tempo. Articulado, sabe explorar o encontro quase diário com os jornalistas para burilar um estilo muito particular de comunic

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Teatral, com pausas friamente estudadas, Tite se transformou em fenômeno nas entrevistas coletivas. Seu sucesso já data de algum tempo. Articulado, sabe explorar o encontro quase diário com os jornalistas para burilar um estilo muito particular de comunicação, que se assemelha aos macetes da arte dramática, incluindo a preocupação com o tempo certo das frases e silêncios.

Perde tempo quem o fustiga com perguntas gaiatas, visando declaração bombástica contra outro time ou mesmo um colega de profissão. Imperturbável, ele capricha nas lições de ética, pregando respeito absoluto pelos adversários e muitas vezes elogiando (sem razão lógica) um time que acabou de derrotar.

Até aí, nada muito diferente da cantilena habitual dos treinadores, que cultivam o doce exercício da hipocrisia para garantir a boa convivência profissional, pelo menos em público. É possível até que Tite seja um cara realmente bacana e solidário, mas ao distribuir elogios imerecidos deixa entrever a intenção marqueteira.

A questão é que, pilotando o time mais midiático do país (supera até mesmo o Flamengo), Tite tem se esmerado em talhar um perfil público que o diferencie dos demais. Com disciplina e método, vai deixando para trás, com braçadas de vantagem, antigos campeões dos holofotes, como Luxemburgo, Scolari ou Abelão.

Antes de reassumir o Corinthians, Tite dedicou-se a um anunciado “período sabático”. Desempregado, acompanhou a Copa do Mundo e viajou pela Europa, observando como funciona o trabalho nos grandes e milionários clubes do Velho Continente.

Não é possível saber se aprendeu algo de útil quanto a formulações táticas, mas refinou a arte de falar em público. Antes disso, escorregava em neologismos esquisitos, recheando suas frases com termos estranhos, como “treinabilidade”. Virou folclore, alvo de piadas. Esperto, nesta nova fase ele aposentou as palavras difíceis, a tempo de não ser confundido com um novo Lazaroni, aquele do célebre “galgar parâmetros”.

Como técnico, nada de inovações. Tite apenas reproduz o trabalho desenvolvido na campanha do título mundial interclubes. Faz neste começo de temporada o Corinthians jogar aplicadamente, marcando em cima e zelando pela retranca. Aliás, poucos times no mundo são tão cuidadosos com a defesa. Lembra até o Atlético de Madri, de Diego Simeone, outro assumido apóstolo da retranca.

Mas, em meio ao desprestígio generalizado dos treinadores brasileiros, o corintiano tem o mérito da perseverança. Virou exceção ao adotar um modelo de trabalho do qual não se afasta nem sob tortura. Seu time expressa sua filosofia.

Muricy já foi assim, Felipão também, mas hoje é forçoso reconhecer que somente o “professor” Tite ostenta quase sozinho a intrépida bandeira do futebol de resultados.

O futuro dirá se isso é motivo para rir ou para chorar.

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