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GERSON NOGUEIRA

Veias abertas da América

O Uruguai venceu o Brasil limpamente em 50. E cercou-se de algo que nenhuma droga pode dar: o entusiasmo. Em duas frases, o diagnóstico da Copa mais trágica de todas. Pertencem a um homem sábio, talvez um dos últimos sábios que passaram por esta nossa Amé

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O Uruguai venceu o Brasil limpamente em 50. E cercou-se de algo que nenhuma droga pode dar: o entusiasmo. Em duas frases, o diagnóstico da Copa mais trágica de todas. Pertencem a um homem sábio, talvez um dos últimos sábios que passaram por esta nossa América Latina. Eduardo Galeano. Afirmou isso em entrevista ao repórter Elvídio Matos, da ESPN, ao analisar, 60 anos depois, a tragédia do Maracanazo.

Sorridente e emocionado, disse mais: “Depois da final, Obdúlio saiu do hotel e foi a um boteco beber uma cervejinha, passear. Ficou então impressionado com as pessoas chorando nas ruas do Rio. O que fiz a eles? Uma gente tão boa e eu fiz com que elas sofressem tanto. O pior é que ele ouvia as pessoas falando ‘Foi Obdúlio, foi Obdúlio...’. Então, a fúria que tinha reservado para o jogo contra o Brasil se transformou em constrangimento, desolação e tristeza”.

Avaliações sensíveis de um poeta-jornalista preocupado com sentimentos, amoroso com as pessoas. Galeano foi um mestre das palavras. Esgrimia verbos com invulgar carinho. Ouvi-lo era prazeroso, pelo tom de voz sereno e grave. Falava um português quase perfeito, emoldurado pelo forte sotaque espanhol. Ler seus escritos era puro deleite, pela clareza das ideias e a profundidade do conteúdo.

Uruguaio de nascimento, Galeano era cidadão do mundo. É claro um homem tão preocupado com os outros só poderia sólida formação esquerdista. Fui apresentado a Galeano quando já era um repórter e tentava diariamente melhorar meu texto, lendo o que de fato valia a pena.

Li alguns artigos dele n’O Pasquim e, a partir daí, aprendi a cultivar o hábito de ler seus livros, começando pelo seminal “As Veias Abertas da América Latina” (editora Codecri), lançado em 1971 e que me fez abrir os olhos para a subserviência política do nosso maltratado rincão. Anos depois, Hugo Chávez daria o livro de presente a Barack Obama, instigando-o a entender as históricas mazelas que castigam o povo das Américas.

Emendei depois com “Futebol ao Sol e à Sombra”, insuperável tratado crítico sobre esse esporte que tanto amamos. Apesar da modulação às vezes sombria, o livro desnuda a paixão que Galeano nutria pelo futebol e que fui aprendendo a confirmar em artigos e entrevistas.

Como fã de futebol, ele era apaixonado pelo Brasil. Histórias sobre as escaramuças, lendas e rivalidades (como a de Flamengo e Vasco) mereceram sua atenção. Como na incrível história de Arubinha, o homem que teria enterrado um sapo no estádio de S. Januário e lançado uma praga de 12 anos sobre o time da Colina. Coincidência ou não, o Vasco só venceria de novo depois de 11 anos.

Perseguido e censurado por várias ditaduras ao longo da vida, Galeano trabalhou como redator chefe do jornal "Marcha", dirigiu o jornal "Época" e publicações da Universidade do Uruguai, de 1964 a 1973. Exilado em Buenos Aires, onde criou a revista "Crise". Em 1976, continuou o exílio em Barcelona. Só retornou ao Uruguai em 1985, depois de restaurada a democracia.

Seus escritos eram fragmentados, assemelhando-se em economia a haicais, quase sempre no formato da crônica livre. Como jornalista, fazia da realidade sua fonte maior de inspiração, com talento suficiente para fazer disso grande literatura, como em “Memória do Fogo” e “Os Filhos dos Dias”, seu último lançamento no Brasil, de 2012.

Modestamente, dedico a ele a coluna de hoje pelo respeito e admiração, e acima de tudo pela fonte de inspiração que representou para a minha carreira. Ter Galeano como modelo é quase pavulagem de um escriba nascido no interior do mato.

Pela paixão inarredável pelo futebol e as claras convicções esquerdistas, de preocupação com os mais pobres e oposição às injustiças do mundo, sempre me senti próximo desse grande uruguaio, que morreu ontem, aos 74 anos.

Para fechar, uma frase inesquecível dele: “Há um só lugar onde ontem e hoje se encontram e se reconhecem e se abraçam. Esse lugar é amanhã”. Cabra bom. Vai fazer falta.

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