Foi uma noite de horror. Sem dúvida, uma das piores do futebol brasileiro nos últimos tempos. Em pelo menos quatro jogos, a arbitragem foi decisiva e influiu diretamente nos resultados. Em duas partidas, especificamente, o peso do apito foi fundamental para mexer na tabela de classificação da principal divisão brasileira.
Na Arena Corinthians, em Itaquera (SP), o Fluminense teve um gol mal anulado quando o jogo estava 0 a 0. Cícero tinha condições legais quando dominou a bola e mandou para as redes. O auxiliar acusou o impedimento inexistente. O Corinthians acabaria vencendo o jogo, disparando na liderança do campeonato.
Não iria disparar se no outro jogo em destaque, entre Atlético-PR e Atlético Mineiro, no Horto, em Belo Horizonte, a arbitragem não fosse tão desastrosa. Inverteu marcações, agiu com excesso de rigor contra o Galo, a ponto de expulsar um jogador, Marcos Rocha, por ter reclamado: ‘Pô, não foi falta, não foi falta’, segundo relato do próprio árbitro Marcelo de Lima Henriques na súmula. Não satisfeito, Lima Henrique marcou um pênalti duvidoso em favor do time paranaense.
Como é o segundo colocado, o Galo não conseguiu subir na classificação e teve que assistir, indignado, o líder Corinthians se distanciar, sob as graças de uma arbitragem bem mais simpática.
De imediato, as redes sociais ecoaram de maneira ruidosa a revolta dos torcedores com o acontecido, embora sem qualquer efeito de ordem prática, afinal os resultados não se alteram e tudo segue como dantes no quartel de Abrantes, isto é, nos palácios de dona CBF.
Na prática, nada de novo quanto aos erros da sempre criticada arbitragem brasileira. Como também não é inédita a chiadeira em relação ao Corinthians, um dos clubes mais beneficiados por erros de apitadores no país nos últimos anos.
Ainda está muito viva a lembrança de 2005, quando o Corinthians foi o principal beneficiado pelas mudanças na pontuação após a descoberta do esquema envolvendo o então árbitro Edilson Pereira de Carvalho. Sem jogos contestados como “manipulados”, a repetição de partidas terminou ajudando o clube paulista, que ainda teria a mãozinha da arbitragem no jogo decisivo com o Internacional.
Tudo poderia ser apenas uma diabólica convergência de falhas, com origem na proverbial incompetência dos árbitros nacionais, mas há motivos para suspeitar que os problemas não são apenas decorrentes de vícios naturais. No cada vez mais endinheirado mercado da bola, erros de arbitragem custam muito caro no aspecto técnico e no front financeiro.
A falha de um apitador pode levar um clube a perder contratos de patrocínio e ficar sem premiações importantes, além de ter consequência no faturamento com a venda de camisas e na bilheteria de jogos.
Não se está pretendendo imputar aos árbitros a responsabilidade única pelas mazelas do futebol no Brasil, mas, pelo papel que lhes cabe, são agentes importantes no processo de esvaziamento do esporte no país. Levantamentos indicam queda progressiva na audiência de jogos na TV aberta. A descrença se alastra quanto à lisura nos resultados de partidas e campeonatos.
A instituição do “apito amigo” se tornou algo recorrente, quase banal, levando a interpretações capciosas de impedimentos e marcação de pênaltis à brasileira, quase sempre beneficiando os clubes mais poderosos – já beneficiados por cotas de patrocínio e de direitos de transmissão também mais polpudas.
As providências pós-rodada foram tímidas. A Comissão de Arbitragem afastou Lima Henrique e mais cinco assistentes envolvidos nos dois jogos citados aqui. Muito pouco para o tamanho dos problemas causados e para o nível de descrédito acarretado ao já desacreditado futebol no Brasil.
Na esteira disso tudo, cristalizou-se na mídia nacional – principalmente a de Rio e SP – o hábito covarde de não melindrar ninguém, preferindo o subterfúgio de que árbitros são ruins e erram contra todos. Não é verdade. Alguns árbitros são ruins, sim, mas os erros são cuidadosamente seletivos. Só não vê quem é cego, distraído demais ou conivente. Não é o meu caso.
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