Os jornais destacaram nos últimos dias a queda generalizada dos investimentos em futebol no Brasil, a começar pela parte que diz respeito aos grandes patrocinadores. A situação afeta os clubes, grande parte deles vulnerável ao ataque da China sobre seus jogadores, mas golpeou ainda mais os arraiais da CBF, que só nos últimos quatro meses perdeu três parceiros masters.
De imediato, analistas que costumam pensar pela cartilha dos neoliberais da The Economist, aquela revista que vive de rebaixar o Brasil e esquecer os muitos problemas dos EUA e da velha Europa, se contentaram com a explicação que liga a escassez de patrocínio à tal crise brasileira.
Com um mínimo de atenção e análise é possível ver um pouco além do argumento predileto da midiazona brasileira para todos os problemas surgidos de 2015 para cá.
Na verdade, a crise é do futebol como negócio. O problema é antigo, mas explodiu de vez com a devassa que levou de roldão a Fifa, com as labaredas do escândalo atingindo em cheio dezenas de dirigentes mantidos a peso de ouro e chegando aos limites da bandalheira orquestrada no Brasil via CBF.
A gigantesca crise de confiança que assola o esporte mais popular do mundo só não abala as grandes instituições, como os clubes da Liga Inglesa, uma meia dúzia de times da Espanha e uns dois ou três da Itália.
No que diz respeito ao Brasil, o buraco é bem mais embaixo.
Além das vicissitudes naturais que atropelam a vida dos clubes por aqui, o escândalo apurado pela Justiça norte-americana atingiu em cheio os pilares que sustentavam a trôpega estrutura de negócios do futebol no Brasil.
A tal estrutura sempre se baseou nos contratos de transmissão de jogos pela televisão, na exploração das placas de publicidade nos estádios e nos patrocínios envolvendo grandes fabricantes de material esportivo e artigos de algum modo relacionados ao esporte.
Nada haveria de errado se essa ciranda beneficiasse a todos indistintamente, respeitando o princípio secular de que um negócio só é bom quando todos estão satisfeitos. Ocorre que no Brasil sempre há alguém ganhando um pouco mais que outros, nem sempre por méritos ou competência, mas por pura esperteza ou pilantragem.
Eis que, aberta a caixa de Pandora do futebol, a podridão se revelou e alguns dos sultões da bola no Brasil foram imediatamente engaiolados pelo FBI, começando pelo notório José Maria Marin e o outro não menos conhecido J. Háwilla, sócio da CBF desde os primórdios da gestão Ricardo Teixeira.
Háwilla abriu caminho no rico filão do futebol comercializando placas nos estádios e cresceu tanto que se tornou parceiro inseparável de reluzentes nomes, incluindo a poderosa emissora que detém os direitos de transmissão dos principais torneios e o poder absoluto de mandar prender e soltar no pobre esporte bretão que ainda praticamos.
É justo dizer também que os dramas da CBF, pelos quais o atual presidente (e sucessor de Marin) viu-se obrigado a se licenciar do cargo para escapar das garras aduncas da polícia federal americana, não respondem por todos os males financeiros do nosso futebol.
Até o principal craque do país está enrolado em denúncias de sonegação fiscal, respondendo aqui e na Espanha, o que não ajuda em nada a melhorar a imagem de uma atividade já suficientemente marcada por suspeitas e bandalheiras em série.
Neymar, apesar da excelente fase vivida em campo, desponta como um garoto-propaganda às avessas, sangrando ainda mais a tisnada imagem do esporte no Brasil. Ontem, a Justiça Federal rejeitou recurso dos advogados do jogador e manteve as multas determinadas pela Receita, no valor de R$ 460 mil.
Não é mera coincidência que quase todos os grandes anunciantes estejam pulando fora da brincadeira. Se pode eventualmente enfraquecer o futebol, pode também ajudar a moralizar a coisa toda, mesmo que por vias transversas.
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