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GERSON NOGUEIRA

O poder da ratoeira

Nem todos os países têm colaborado como deveriam com a investigação do FBI sobre a máfia no futebol mundial, desmascarada a partir do escândalo na Fifa e em confederações nacionais. Um dos países que menos colaboram com as ações da Justiça norte-americana

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Nem todos os países têm colaborado como deveriam com a investigação do FBI sobre a máfia no futebol mundial, desmascarada a partir do escândalo na Fifa e em confederações nacionais. Um dos países que menos colaboram com as ações da Justiça norte-americana é justamente o Brasil, pentacampeão mundial em campo e um dos líderes em trambicagens envolvendo o futebol.

Para a quantidade de bandalheiras que envolvem dirigentes, empresários, agentes e empresas de comunicação, os organismos brasileiros de fiscalização têm sido muito econômicos nas contribuições ao FBI. Alguns aspectos precisam ser observados para que se compreenda a timidez investigativa por parte de policiais e promotores.

Desde que João Havelange assumiu o poder na Fifa, lá pelos anos 70, o Brasil passou a ser um dos grandes protagonistas do esporte das multidões, tanto pelo talento indiscutível de seus jogadores quanto pela capacidade de rapinagem de seus dirigentes.

O avanço da TV sobre o futebol se materializou com a transmissão de competições importantes e a cobrança de altas somas junto a grandes patrocinadores, ávidos por expor seus produtos para grandes plateias. Isso começou exatamente sob o reinado de Havelange.

Como a audiência dos torneios – principalmente a Copa do Mundo, a galinha dos ovos de ouro – passou a ter abrangência planetária, a Fifa se transformou em verdadeira fábrica de dinheiro, colecionando contratos milionários a cada novo evento e angariando cada vez mais influência política nos países membros.

A entidade poderia ter se conformado em ser apenas hiper lucrativa, mas resolveu ir além disso, beneficiando regiamente seus principais dirigentes, a partir de negócios ilícitos em larga escala ao redor do mundo.

Os clubes também fazem parte da ciranda financeira, na condição de protagonistas do espetáculo. Por conta disso, calcula-se que o mercado de atletas (entre contratações, empréstimos e transferências) movimenta hoje cerca de 4.5 bilhões de dólares/ano, sendo que 25% disso - mais de 1,1 bilhão de dólares - provém da lavagem de dinheiro.

Ao mesmo tempo, as corporações midiáticas hegemônicas em cada país passaram a ter papel importante na engrenagem, funcionando como sócias dos esquemas administrados pela Fifa.

Foi a partir dessa constatação que o FBI lançou-se à tarefa de desnudar as maracutaias praticadas pela Fifa. Começou botando a mão nos principais dirigentes – incluindo o brasileiro José Maria Marin –, por ocasião do congresso anual na Suíça e forçando o afastamento de Josef Blatter da presidência.

A partir daí, os americanos centraram esforços nas confederações nacionais e seguiu enjaulando muito peixe graúdo, incluindo o presidente da Conmebol, o secretário-geral Jerôme Valcke e o empresário brasileiro J. Hawilla, responsável por costurar todos os contratos de transmissão com a emissora líder de audiência no país.

Tudo isso e mais alguma coisa está no alentado livro que o repórter Jamil Chade está lançando, “Política, propina e futebol: como o Padrão Fifa ameaça o esporte mais popular do planeta”. Em entrevista a Luis Nassif, divulgada no site Jornal GGN, Chade revela que a obra esmiúça os escaninhos da grande operação desencadeada pelo FBI. O jornalista se especializou na cobertura da Fifa e estava em Zurique por ocasião da prisão dos chefões da máfia da bola.

O mais importante nisso tudo é que a teia de corrupção montada pela Fifa só se tornou possível pela fina sintonia entre federações nacionais e grandes grupos midiáticos, com força suficiente para travar investigadores curiosos e até políticos mais histriônicos. Um exemplo claro é a postura do ex-artilheiro Romário, hoje senador, que começou disparando para todos os lados e aos poucos sossegou o facho, principalmente quando as denúncias contra na CBF começaram a englobar certa rede de TV.

A simbiose existente entre os principais atores – e pelo imenso poder que detêm no país da Lava Jato – talvez explique a timidez das contribuições do MPF brasileiro para o trabalho do FBI. Por tudo isso, não há perspectiva de avanço. Por enquanto.

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