A mídia esportiva mundial não falou de outra coisa nos últimos dias: a transferência de Neymar para o PSG, deixando o Barcelona a ver navios. A notícia causou espanto por três motivos principais: o jogador estava satisfeito e bem ambientado no clube; ninguém parecia ter grana suficiente para tirá-lo de lá; e também, cá pra nós, porque não é comum alguém abandonar o Barça, sonho de consumo de quase todo jovem boleiro.
Para um atleta de sua idade, com muito ainda por conquistar e provar, Neymar demonstra coragem, desassombro até. Imagine a quantidade de gente buzinando no ouvido dele para que não tomasse essa decisão, para repensar as coisas, para pensar nos amigos de clube, na sensacional paisagem de Barcelona, nas pantagruélicas paellas etc.
Pois nada disso deteve o melhor jogador surgido no Brasil na última década. Como a ousadia está sempre próxima da loucura, talvez daqui a algum tempo a gente esteja reavaliando tudo isso e chegando à conclusão de que Neymar meteu os pés pelas mãos e fez uma tremenda bobagem.
Pode ser. Acredito, porém, que ninguém jamais deve recuar de seus projetos pessoais. Nada deve inibir os planos de quem sonha com algo melhor. E é absolutamente natural que Neymar esteja fazendo isso agora. A maturidade traz junto a tendência a evitar riscos, o medo das incertezas.
Alguém já disse que o mundo pertence aos jovens, entre outras razões, porque o jovem não tem medo. Ao contrário, gosta de arriscar, e o risco tem uma face irresistível. Por isso, a maioria das pessoas aplaude o destemor do ex-santista.
O outro lado da moeda diz respeito ao desconforto pela saída abrupta, que magoou profundamente fãs, torcedores, atletas e dirigentes do clube catalão. Fica um quê de ingratidão, afinal o Barça recebeu Neymar de braços abertos, concedendo-lhe o mesmo tratamento generoso dispensado antes a Evaristo, Marinho Peres, Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho.
Desde que o negócio foi fechado, os jornais espanhóis descem a lenha em Neymar. Foi chamado de mercenário e ganancioso. O Sport abriu manchete entupida de mágoa: “Até nunca mais”. Uma reação compreensível e humana, ainda mais numa região orgulhosamente autônoma e altiva.
Faltou apenas considerar que o atleta também deu muito ao clube, jogou em altíssimo nível quase sempre e retribuiu regiamente os salários que recebia. Pancadas também foram estendidas ao pai do jogador. Ora, que surpresa? Todo pai busca sempre o melhor para seu rebento.
Johan Cruyff, monumento do futebol mundial e exemplo raro de boleiro consciente, dizia que um jogador que não se sente bem no Barcelona não deveria ficar lá. Ao fazer esse comentário, há alguns anos, o maestro da Laranja Mecânica e eterno ídolo azul-grená, estava apenas sendo coerente com o slogan da agremiação: “Més que un club”, como está escrito na canequinha que mantenho na minha estante.
É claro que existe uma razão menos ortodoxa para a decisão de Neymar. O fisco espanhol não dá tréguas a craques milionários acostumados a gambiarras, como se vê usualmente no Brasil da CBF e suas tramoias. Ninguém escapa ao pente-fino, nem mesmo Messi.
Com Neymar não foi diferente, até porque na transação que o tirou do Brasil houve o envolvimento do então gestor do Barça, Sandro Rosell, preso recentemente por lavagem de dinheiro e outras trapaças. O crescente incômodo com as movimentações da Justiça talvez tenha pesado na opção pela terra de De Gaulle e Sartre.
A sorte está lançada. Que Neymar seja bem-sucedido, ajude o PSG a conquistar respeito na Europa e jamais deixe de lado a Seleção. E, claro, que fique cada vez mais rico, mas nunca esqueça – como no velho poema – quem é o dono de quem.
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