Lá não tem preso. Tem reeducando. É o que a gente aprende quando chega no [Centro de Progressão Penitenciária de Belém] CPPB, junto com o lema ‘Respeito, Educação e Disciplina’”. A fala de Aleksei dos Santos, de 29 anos, instiga para uma nova interpretação do significado da comemoração do Dia do Trabalhador, no último primeiro de maio: uma que envolve aqueles que querem tão ansiosamente sentirem-se dignos de poder celebrá-la. Um dos 43 participantes do projeto Começar de Novo, criado pelo Poder Judiciário estadual, e que promove ações de reinserção social de presos, egressos do sistema carcerário e de cumpridores de medidas e penas alternativas, ele há seis meses trabalha na parte de digitalização de processos do Tribunal de Justiça do Estado do Pará ao mesmo tempo em que cumpre sua pena, datada de 2012, de oito anos de prisão pelo crime de roubo. “É uma grande porta que se abre, e que me faz cada vez mais só focar lá na frente, no futuro”.
Aleksei já tinha feito alguns cursos, dentro do cárcere, antes de conhecer o projeto. Quando soube de uma oportunidade de treinamento para o TJ-PA, se inscreveu e acabou selecionado para ficar. Assim como os demais acolhidos pelo Começar de Novo, ganha um salário mínimo pela função, assim como vale transporte e vale alimentação. “Eu já tinha feito curso de informática antes de ser preso, isso ajudou. Voltei a estudar. Quero me formar em algum curso técnico nessa área”, adianta ele, que é pai de seis filhos. “Esse primeiro de maio é de muito agradecimento, a Deus e à [Superintendência do Sistema Penal] Susipe, que me permitiram voltar a trabalhar. É uma motivação, sabe? Para esperar o fim da pena. Sempre tem o pessoal que não quer nada, mas tem, sim, gente que quer se renovar, melhorar. Tem colega lá no CPPB que já está até fazendo faculdade. Mas as pessoas ainda tem muito preconceito, não conseguem enxergar que tem preso que quer muito essa segunda chance”.
CURRÍCULOS
Aline Soares, de 36 anos, trabalha junto com Aleksei no TJ, e está quase na metade da pena de 12 anos e seis meses que cumpre por tráfico de drogas. Mãe de quatro filhos, ela está há pouco menos de um ano do Tribunal, depois de ter passado por outras empresas e órgãos públicos conveniados ao projeto Começar de Novo. Para ela, a experiência vai ajudar no currículo no momento em que a condenação se extinguir. “É difícil, eu sei, trabalhar depois de ser presa, existe muito preconceito, mas acho que já estar trabalhando mesmo cumprindo pena é vantagem. É uma vitória, né? O que vivi foi uma ilusão. Prefiro mil vezes ralar para ter meu dinheiro do que passar de novo pelo que passei”, resume.
“Eu achava que o problema era falta de oportunidade, mas a verdade é que mesmo com um sistema falido, se quiser, tem. Não são muitas oportunidades, mas tem. Só aqui são 30, quem quer mesmo, consegue”, garante Washington Queiroz, de 26 anos. Há um mês ele começou a trabalhar em uma agência dos Correios em Belém, desempenhando função administrativa, e tem certeza de que deu início a um caminho sem volta, no melhor sentido que a palavra pode ter. “Não vai começar, já começou a dar certo, e tenho certeza que Deus vai me ajudar nisso”, reforça o jovem, condenado em 2010 a oito anos e oito meses por assalto.
FACULDADE
Assim como Aleksei, ele pôde fazer cursos ainda no regime fechado e ao passar para o regime semiaberto, tratou de buscar algo maior. “É uma oportunidade ímpar, eu estou começando de novo, dando início a uma nova vida digna para mim, para os meus três filhos. Terminei meu Ensino Médio esse ano e quero fazer faculdade de Administração ou Engenharia”, planeja.
Ainda no regime fechado, Cristina Ribeiro, 43, foi do coral do TJ-PA, fez faxina, fez teatro, aulas de violão. Qualquer coisa que lhe tomasse tempo, ela topava. Há um ano entrou nos Correios, é colega de trabalho de Washington. Cumprindo desde 2007 uma condenação de 16 anos, ela não se furta de se emocionar ao falar sobre os significados de voltar à socialização por meio do trabalho. “Queria saber quem teve essa ideia maravilhosa de criar essas parcerias que nos deixam trabalhar porque, olha, eu não tenho nem como mensurar a importância disso. A gente se sente valorizado, faz bem pra autoestima. É um voto de confiança que faz uma diferença enorme. Gostaria muito que os empresários se dessem mais conta disso para que haja mais oportunidades para quem quer melhorar”.
Além do trabalho de segunda a sexta, Cristina já faz faculdade de Pedagogia aos sábados. “Com meu dinheiro que eu ganho trabalhando!”, faz questão de esclarecer. “É impossível, nesse Dia do Trabalhador, não comparar o antes com o agora... Não é trabalho, é presente, é motivo para acordar todo dia. Onde trabalho, todos se tratam de forma igual, melhorou muito a minha cabeça ter essa rotina. É repetido dizer, mas é verdade, o trabalho dignifica o homem”, detalha, com o rosto avermelhado de emoção.
GANHANDO TEMPO
O Começar de Novo foi criado em 2009, por determinação do Conselho Nacional de Justiça. Portaria do TJE criou o Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário-GMF, composto por: Susipe, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA), Ministério Público do Estado do Pará, Conselho da Comunidade, Defensoria Pública e Fábrica Esperança. Os apenados participantes conseguem a anulação de um dia da condenação a cada três dias trabalhados - ou a cada 12 horas de estudos.
(Diário do Pará)
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