“As pesquisas mostram que, em média, os alunos dão um passo a frente quando fazem o Enem”. A afirmação é de Mateus Prado, 40 anos, considerado um dos maiores especialistas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do Brasil. Natural de São Paulo, Mateus Prado é sociólogo e administrador público. Para ele, o exame ajudou a nivelar o conhecimento e o acesso às universidades. Segundo Prado, no vestibular tradicional o nivelamento era mais elitista. O professor esteve em Belém no final de abril para participar da Feira Vocacional do Sistema de Ensino Equipe Já o Enem possui diferentes níveis de exigência e entendimento das questões. “Isso possibilita que o aluno de proficiência média se destaque, por exemplo”, pontua. De acordo com o especialista, que possui mais de 2 milhões de seguidores em suas redes sociais, o estudante geralmente consegue tirar notas melhores no Exame do que nos antigos certames. Confira entrevista exclusiva do DIÁRIO com o especialista na prova.
P: O Enem também uma ferramenta de avaliação do Ensino Médio. Nesse caso, o exame tem cumprido seu papel?
R: As pesquisas mostram que, comparado ao vestibular tradicional, todos dão um passo à frente quando fazem o Enem. Em 2015, 6 milhões fizeram a prova. Hoje, o Enem avalia o Ensino Médio, certifica quem não cumpriu o ensino regular, seleciona para o ProUni e universidades federais, além de filtrar por renda quem precisa do Fies. Assim, quem tem uma formação menos adequada na escola consegue dar seus próprios passos, pois tem como entender e acertar, proporcionalmente, mais questões na prova. Por outro lado, quem tem maior proficiência também dá um salto qualitativo. A distância entre os mais pobres e os mais ricos diminui.
P: Como que ocorre esse nivelamento?
R: A prova não avalia na ponta de cima ou na ponta de baixo, mas de maneira transversal. Temos um número maior de questões de peso fácil e médio do que no vestibular tradicional. Antes, tudo era difícil e acabava equiparando para baixo os candidatos de proficiência média e baixa. Muitos acertavam o mesmo número de questões.
P: Então o Enem é um instrumento mais justo de acesso ao nível superior?
R: Sim. O Enem também dá a possibilidade para que o candidato concorra a uma vaga em várias universidades pelo país. E o que cria a inclusão é o aumento de vagas no Ensino Superior. No início do governo Lula em 2003 existiam no Brasil 45 universidades federais. O governo criou então o programa Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais). Para aderir ao programa as federais teriam que abrir campi em cidades polo. Durante os dois governos Lula mais 14 universidades são criadas. Passamos a ter 59 federais. Hoje, já são 63. Aumentaram consideravelmente as vagas e, colado a isso, vem o Enem. O que inclui os estudantes no Ensino Superior são programas de aumento no número de vagas e o financiamento governamental a universidades particulares. O Enem é só o meio.
P: Há uma universalização, no país, do programa?
R: Exato. Antes, o estudante aqui do Pará, por exemplo, disputava 5, 6 mil vagas para uma prova. Hoje, ele pode optar por disputar 400 mil vagas em universidades públicas, mais de 500 mil vagas no Prouni e mais de um milhão de vagas no Sisutec (Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional), além das vagas do Fies. Então qualquer pessoa no Pará, com uma prova só, pode participar de cerca de 2 milhões de vagas. O exame cria mecanismos para que você faça a prova antes e decida depois qual o curso que pode fazer. Se pensarmos no exame como instrumento de inclusão, ele dá a possibilidade de disputa de muito mais vagas. São milhões de possibilidades, a partir de uma só avaliação.
P: Como você se comunica com esses estudantes?
R: Eu comecei a escrever o Guia Enem antes do exame se tornar instrumento de seleção unificado. O primeiro Enem é em 1998 e eu já começo a falar e escrever sobre ele. Em 2009, quando o exame é anunciado como possibilidade de vestibular, eu escrevi 4 livros divididos por área indicando como seria o processo. As pessoas sabe que o Enem é diferente, mas a ampla maioria não sabe no que ele é diferente, porque o MEC e o Inep foram incompetentes para fazer esse esclarecimento. O sucesso deriva não da minha capacidade em decifrar o exame, mas dessa lacuna deixada pelo poder público.
(Luiz Flávio)
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