Uma das mais tradicionais manifestações culturais do Brasil está ameaçada pela pandemia do coronavírus. Diferente do cantado por Luiz Gonzaga, não há xote ou baião ou passos de quadrilheiros no salão, a pouco mais de dois meses dos festejos juninos.
Em meio ao caos da covid-19, os grupos que animam as festividades de São João no Pará, em especial as quadrilhas juninas, vivem um período de incertezas: alguns decidiram pelo cancelamento das atividades neste ano, outros, nutrem a esperança da realização dos concursos, mesmo que no segundo semestre.
A preparação de muitas quadrilhas juninas começa ainda em janeiro e segue intensamente até os meses de maio, quando ocorrem os chamados ‘concursos de sujo’ ou concursos de ensaios, e de junho, quando são realizadas as disputas oficiais.
Tudo isso envolve, além do tempo investido, gastos com os trajes e viagens que chegam, em média, a R$ 20 mil, segundo Júnior Lisboa, coordenador da quadrilha Rainha da Juventude, do bairro da Cremação, em Belém. A aposta é alta para o cenário de imprecisões.
“A quadrilha que coordeno [Rainha da Juventude] gasta em torno de R$ 22 mil, mas esse valor já chegou até a R$ 25 mil. Só com sapatos se gasta R$ 4 mil ou R$ 5 mil. O custo para uma quadrilha se deslocar para fora de Belém é em torno de R$ 1,5 mil. Algumas quadrilhas chegam a gastar R$ 30 mil no total”, estima Júnior Lisboa.

Segundo o coordenador da Rainha da Juventude, algumas agremiações trabalham com a hipótese de que os concursos sejam realizados no segundo semestre, entre os meses de agosto a outubro. Outros, preferem se planejar para o próximo ano.
“O movimento junino se encontra hoje com duas linhas: uma parte que decidiu que não irá sair, mesmo que tenha São João no segundo semestre; outros, estão na linha de tentar fazer algo no segundo semestre. A maioria acredita que não haverá mais nada em junho”, diz Júnior Lisboa.
“A gente ainda tá com a esperança que haja São João. Alguns mais que outros. Alguns grupos já arquivaram seu projeto e estão trabalhando para o São João 2021. A quadrilha que faço parte está nessa linha, até porque nosso custo é muito alto. Talvez não compense fazer algo fora de época, da plenitude que é no mês junino”, diz o coordenador.
Quadrilha do Jurunas segue mesma linha

Quem segue o mesmo pensamento são os integrantes do tradicional grupo Sedução Ranchista, do bairro do Jurunas, em Belém. Mesmo com 90% dos materiais para os trajes comprados, o provável é que o grupo apenas se apresente em 2021 no caso de um adiamento dos concursos para o segundo semestre.
“O que estamos vendo, por enquanto, é que o São João está praticamente perdido esse ano. A vontade é muito grande para que o São João aconteça, mas eu, particularmente, como presidente da quadrilha, e outros diretores de quadrilha, tenho o pensamento que se o São João não for realizado no mês de junho, perde a essência”, comenta Silvio Baia, presidente da quadrilha Sedução Ranchista.

Relembre parte da apresentação da Sedução Ranchista em 2019
CAMPANHAS DE CONSCIENTIZAÇÃO E ENSAIOS POR VÍDEO
Apesar do clima de tristeza, grande parte dos quadrilheiros entende a excepcionalidade do momento e voltam os esforços para a campanha de conscientização sobre o isolamento e prevenção.
“Mesmo preocupado com essa questão de não ter São João, a gente está trabalhando muito na prevenção e no cuidado nessa pandemia”, diz Júnior Lisboa, da Rainha da Juventude.
“Nós estávamos aguardando o desenrolar da situação da pandemia. Nós tínhamos esperança, e ainda temos, que ela viesse a acalmar e ser só um susto, mas infelizmente não é. Ela está aí. Não podemos nos arriscar e nem arriscar a saúde dos nossos brincantes”, opina Silvio Baia, da Sedução Ranchista.
A Quadrilha Forró Sanfonado, de Ananindeua, por exemplo, decidiu fazer uma campanha nas redes sociais para conscientizar membros da comunidade a permanecerem em casa e tomar outros cuidados para evitar o contágio. “O São João espera, sua saúde não!” é um dos slogans adotados pela agremiação.
“Eu acho que é muito importante nossa união e conscientização nesse momento. O movimento de Quadrilhas Juninas do estado está dentro dos bairros e das casas de muitas famílias. Temos que usar toda a influência que temos para mostrar a seriedade do que estamos passando e assim não botar a vida dos nossos brincantes e seus familiares em risco, São João temos todos os anos, então essa é a hora de prezar pela saúde de todos”, afirma Adriana Reis, da quadrilha Forró Sanfonado.
“Nossos brincantes estão muito tristes, porque não vemos a possibilidade de ter São João esse ano do jeito que a gente gosta, dançando duas a três vezes na noite, nos finais de semana. Para nós, nos resta fazer a conscientização, aguardar um pouco e, provavelmente, nos preparar para o São João de 2021”. continuou Adriana.
Dança é gravada e compartilhada pelo WhatsApp
Há também quem adotou estratégias para não ficar parado durante a pandemia, a exemplo da quadrilha Sedução Mojuense, da cidade de Moju, nordeste do Estado: os brincantes do grupo estão se comunicando por meio de um grupo de WhatsApp e usando vídeos dos ensaios para treinar em casa.
“Começamos [os ensaios] em janeiro e só ficamos parados no período do carnaval. Chegamos a fazer cerca de 10 minutos da coreografia, mas suspendemos as atividades por causa da pandemia. Neste momento, era pra estarmos quase prontos, mas vamos esperar até normalizar essa situação”, explica Ubiraci dos Santos, coordenador e fundador da quadrilha mojuense que já venceu cinco vezes o torneio de quadrilhas da cidade, além de ter conquistado outros títulos intermunicipais.
“Com o decreto municipal [proibindo aglomerações] e as subvenções suspensas, não compramos nem os tecidos [das fantasias]. A expectativa de alguns quadrilheiros é realizar a quadra junina em agosto ou setembro. Vamos aguardar”, completa Ubiraci.
Veja aqui parte da coreografia!
CONCURSO DEPENDE DE PRÓXIMAS MEDIDAS, DIZ SECULT
A Fundação Cultural do Pará, responsável pela organização do concurso estadual de quadrilhas juninas, afirmou, por meio de nota, que “vai acompanhar as próximas medidas do Governo do Estado em relação à pandemia, bem como a maneira como a sociedade vai se adequar a este processo ao longo deste mês”.
“A Fundação Cultural do Pará ainda não realizou nenhuma alteração no calendário do seu tradicional Arraial. O órgão vai acompanhar as próximas medidas do Governo do Estado em relação à pandemia, bem como a maneira como a sociedade vai se adequar a este processo ao longo deste mês. Caso os festejos ocorram sem alteração de data, toda a estrutura certamente será pensada de maneira a se adequar a esta nova realidade e aos critérios que garantam a proteção da saúde pública. Caso contrário, não sendo possível sua realização em junho, o Arraial será então realocado para outro período, de acordo com a necessidade. A FCP reforça seu compromisso não apenas com a cultura, mas com a saúde e segurança da população paraense”, conclui a nota da Fundação Cultural do Pará.
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