Foi há cinco anos, mais ou menos, que, embebido da magia de Guimarães Rosa, o mineiro (de Belo Horizonte) Rodrigo Siqueira andou feito andarilho pelas Minas (Gerais), tentando encontrar quem lhe decifrasse um dos enigmas mais fascinantes do "causo" rosiano, o enigma de Riobaldo com o Diabo, no meio do "redemunho". Foi desse encontro com a realidade bruta que nasceu o belíssimo Terra Deu, Terra Come, melhor documentário brasileiro do É Tudo Verdade deste ano. O filme estreia hoje na cidade, lançamento pequeno, como convém a uma obra de perfil exigente. Terra Deu, Terra Come não se destina ao público que acompanha filmes divertidos com pipoca e refrigerante, mas também não deve desanimar ninguém.
Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, os maiores documentaristas do País, não deixaram por menos e aplicaram ao jovem Siqueira o rótulo de gênio. Terra Deu, segundo eles, é uma trapaça genial, mas isso o espectador só descobre ao longo e na conclusão deste programa de apenas 88 minutos de duração. Percorrendo as terras de Minas, Rodrigo Siqueira encontrou Pedro de Almeida, de 81 anos, garimpeiro de diamantes e cantador de vissungos.
Você talvez não saiba o que são vissungos, mas Siqueira sabia, pois leu um livro considerado clássico, O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, do professor Ayres da Matta Machado. Vissungos são cantos em dialeto benguela que, numa região específica, o Quartel do Indaiá, antigo quilombo próximo a Diamantina, Seu Pedro é o último a preservar. Ele cantava vissungos em parceria com o irmão, que morreu. O canto é uma espécie de conversa que os cantadores levam entre si. Privado da colaboração do irmão, Seu Pedro corria o risco de perder a fórmula e a forma dos vissungos. Com certa urgência, Siqueira conseguiu uma verba para fazer seu documentário, centrado em cantos fúnebres.
Seu Pedro honra seu velho amigo, João Batista, morto aos 102 anos. Ele entoa seus vissungos durante o velório e, depois, acompanhando o corpo à sepultura, numa caverna. Só que há nisso tudo um artifício, como já foi dito. O documentário, etnográfico de tão realista, de Rodrigo Siqueira, vira uma obra de ficção, ou quase. Fica no limite - nas bordas - como outros títulos importantes do cinema brasileiro atual, o Santiago de João Moreira Salles; Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho; e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci.
Rodrigo Siqueira é jovem, pai de Benjamin e torcedor do Galo. Como intelectual - documentarista -, é exigente e meticuloso, construindo seu filme com rigor. Quando trapaceia, é por exigência dramática. Quando se encontrou com o repórter do Estado, para a entrevista sobre Terra Deu, Siqueira levava um texto que escrevera. O tema - sua relação primeva com o cinema. O pai tinha um bar e restaurante, o Jamaica, no Barreiro, um bairro operário no subúrbio de BH. Boêmios e sindicalistas frequentavam o Jamaica e, em frente, havia um cinema, o Riviera. Menino ainda, Siqueira era chamado de "Pescoço", porque vivia pescoçando as conversas alheias no bar.
Cine Paradiso. Quando não estava ali, estava no cinema, ao qual o porteiro Zé Carlos lhe dava entrada grátis. O Riviera foi o Cine Paradiso de Siqueira. Lá, aos 6 ou 7 anos, ele ficou marcado pelo seio de Iracema, na transa amazônica de Jorge Bodanzky. Zé Carlos não lhe abriu somente as portas do cinema e do mistério da mulher. Ele foi o primeiro cadáver que Siqueira viu, ainda garoto. Como ele diz, carrega aquela imagem do morto com ele, até hoje. O canto fúnebre de Terra Deu ultrapassa Guimarães Rosa e João Batista, cantado por Seu Pedro. Talvez seja a homenagem tardia de Siqueira também a Zé Carlos. (AE)
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