Ao contrário da irmã, Sofia, o talentoso filho de Francis Ford Coppola, Roman, não conseguiu se desenvolver na carreira e, após um primeiro filme promissor, dirige a segunda unidade de “Tetro”. O filme é, entre outras coisas, sobre a dificuldade de viver à sombra do gênio. Foi um tema recorrente no ano que se encerra. Também está em “Vincere”, de Marco Bellocchio. Ambos tratam de relações familiares. Um garoto que procura o irmão mais velho, a quem adora, e descobre segredos familiares - desvenda o mistério da própria identidade. A mulher renegada de Benito Mussolini, internada como louca porque ousa proclamar ao mundo o que o Duce quer que permaneça secreto - que ele tem um filho.
“Tetro” e “Vincere” foram os melhores filmes do ano? Seria desconsiderar o extraordinário aporte do cinemão - sim, Hollywood - por meio de obras como “A Origem”, de Christopher Nolan, e “Toy Story 3”, de Lee Unkrich. Na retrospectiva da década, José Padilha, autor do fenômeno do ano – “Tropa de Elite 2” -, observou que os processos digitais, que permitiram a entrada das tecnologias computadorizadas no cinema, mudaram não apenas os métodos e os meios de filmagem, mas também a força das imagens na tela. Basta ver o realismo fantástico que os desenhos animados alcançaram - azar de quem acha que “Toy Story 3” é só sobre bonecos (e para crianças).
Num certo sentido, a retrospectiva do ano corrobora a da década. As novas tecnologias continuaram dando as cartas, mas tivemos gloriosas exceções - os filmes que ainda apresentam suntuosas imagens captadas em celuloide. Independentemente do processo de captação, o perigo, advertia Padilha, é achar que imagens incríveis podem substituir a boa dramaturgia. “Vincere” reinventa “Antígona”, “Toy Story 3” dá nova roupagem ao desfecho do western clássico “Os Brutos Também Amam” (Shane) e, no caso de “A Origem”, o próprio título tem valor de esclarecimento. O cinema e a interpretação dos sonhos, segundo Freud, nasceram juntos, e Nolan transformou em pathos as ferramentas de investigação freudianas.
Num ano rico de ideias e formas, o Brasil fez história ao estabelecer novos recordes de participação no próprio mercado. Já virou lugar comum dizer-se, o que é verdade, que o mercado de cinema do País é formatado para a produção estrangeira. “Tropa 2” não é apenas o filme brasileiro de maior sucesso de todos os tempos - o mais visto - como, ao ultrapassar 11 milhões de espectadores, se converteu também no número 1, incluídas as produções de Hollywood. Embora os críticos vivam dizendo que o sucesso de público não é a única ferramenta - o que eles dizem, na verdade, é mais incisivo, que não é a melhor - para se avaliar a qualidade de um filme, ninguém é louco de subestimar o extraordinário significado da vitória de Padilha e de seu “Tropa 2”. O filme, além do mais, antecipou um movimento da sociedade e a invasão das favelas cariocas, numa operação policial/militar para erradicar o tráfico, dificilmente teria ocorrido sem o aval do capitão, agora coronel Nascimento da ficção.
Viver à sombra, encaminhar-se para a luz - a busca da consciência. Por uma curiosa - estranha? - coincidência, o tema do ano virou metáfora da política brasileira, porque a presidente eleita (e que assume no dia primeiro) também terá de sair da sombra do atual presidente para dizer a que vem.
Por falar em sombras, a mais terrível história de vingança do ano veio confirmar as qualidades que o público gosta de atribuir ao cinema argentino, no fundo lamentando que a produção brasileira não se assemelhe à do Prata. Um cinema de classe média, de testemunho, solidificado por virtudes de diálogo, interpretação e realização – “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella. O desfecho de “O Segredo” é puro horror - o torturador torturado, encerrado na própria miséria. Mas o filme de horror do ano, dos últimos anos, foi outro. Leia mais no Diário do Pará.
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