Crítica
LUIZ CARLOS MERTEN
(Agência Estado)
Pode ser psicanálise elementar, mas John Lennon, que foi abandonado pela mãe quando criança, talvez tenha passado a vida inteira procurando uma substituta para ela. Encontrou-a em Yoko Ono e foi a união perfeita - até que os disparos de Mark Chapman pusessem fim à harmonia do casal. Dificilmente o espectador que for ver “O Garoto de Liverpool” deixará de pensar assim.
Pois embora o garoto de Liverpool biografado pela diretora Sam Taylor Wood seja Lennon, o filme cobre os anos em que o jovem, atormentado e solitário, ligou-se a Paul (McCartney) e a George Harrison. Foi naquele período entre 15 e 20 anos, quando descobriu o rock e formou a primeira banda. A amizade foi o embrião para o surgimento dos Beatles, o que todo fã de carteirinha sabe.
É uma história conhecida, é verdade que não por todos e a diretora imprime seu toque pessoal ao retirá-la do âmbito dos amigos para encontrar outro foco. Porque a Sam Taylor Wood o que interessa de verdade é a relação de Lennon com as duas mulheres que marcaram sua infância e adolescência - a mãe que o abandonou e a tia que o criou. Essa mãe foi sempre um fantasma a assolar a criatividade do artista, em famosas criações como “Mother” e “Woman”, ambas da sua carreira solo.
“Mother, you had me, but I never had you/I wanted you, you didn”t want me” (Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você / Eu queria você, mas você não me quis), canta/chora o eterno garoto marcado pela rejeição. Uma forma de compensação ele encontra na tia, que lhe dá a primeira guitarra e termina por abrir, pela via da arte, uma possibilidade de superação. Só que isso pode induzir o espectador a uma expectativa errada sobre o que vai encontrar no filme. Sam Taylor Wood, até por ser mulher, talvez queira iluminar um pouco essa mãe, resgatá-la da sua aura de crueldade.
Pois o jovem Lennon, ao descobrir o paradeiro da mãe, vai bater à sua porta, tentando ouvir dela o porquê do abandono, Cria-se uma espécie de vínculo tardio e ele coincide com a depressão que a morte do marido causa na tia. Produz-se quase que uma inversão - a mãe fica mais palatável e a tia revela seus aspectos mais sombrios. O pobre garoto de Liverpool, realmente, depende cada vez mais da arte para solucionar os impasses de sua vida. (Diário do Pará)
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ASSISTA: 'O Garoto de Liverpool', de Sam Taylor Wood. Exibição no Cine Estação (Estação das Docas). Sessões dias 20, 21 e 23/04, às 18h e 20h30. Ingressos: R$7 (inteira) e R$3,50 (meia). Realização OS Para 2000, Secult e Governo do Pará. Patrocínio Oi.
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