Há verdadeira festa brasileira nos cinemas da capital francesa. Mais do que qualquer outra grande cidade do mundo, Paris é a capital da cinefilia. Ontem (25) desembarcaram aqui os filmes que integraram a seleção de duas importantes seções do Festival de Cannes, Un Certain Regard e Quinzaine des Realizateurs. A primeira foi aberta num simpático cinema do Quartier Latin, o Reflets Medicis. A sessão de “Trabalhar Cansa”, de Marco Dutra e Juliana Rocha, foi aberta em presença da dupla de diretores.
Mesmo sem prêmios - e olhem que o júri de Um Certo Olhar, presidido por Emir Kusturica, revelou-se incapaz de escolher e entre 20 filmes premiou quatro, dois com o troféu principal e outros dois com menções -, “Trabalhar Cansa” despertou a atenção da mais exigente crítica francesa da atualidade. Transfuge é hoje a grande revista de debates intelectuais da França. Antecipando os destaques do 64º festival, o crítico da revista já havia colocado o filme brasileiro nas nuvens.
“Trabalhar Cansa” começa e termina bem. Seu problema está no miolo, mas essa história de um marido desempregado cuja mulher monta um negócio e o conduz com mão de ferro, com certeza, vai ser objeto de discussão quando o filme estrear no Brasil.
Cotação máxima
Os outros filmes brasileiros de Paris são estreias no circuito comercial, em salas selecionadas (e de arte/ensaio). Cahiers du Cinéma, na edição de maio, elogia muito “Os Famosos” e os “Duendes da Morte”, de Esmir Filho, rebatizado como “Play a Song for Me”. O crítico de Cahiers lembra que “Os Famosos” já deixara, no Festival de Biarritz, a lembrança de um filme luminoso e envolvente. Agora, a revista destaca o que há de insólito na obra de Esmir - a paisagem invernal do sul do Brasil, à sombra de Bob Dylan. Conclui que é um filme teen de recorte autoral e exigente.
“Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck, não foi exatamente o que se possa considerar um grande sucesso de público e crítica no Brasil. Na França, é possível que a crítica, pelo menos, vá sorrir para a coautora (com Walter Carvalho) de “Cazuza”. “Rêves Volés”, título em francês, ganhou a cotação máxima do crítico de uma revista local, A Nous Paris. Quatro estrelas e a definição de filme ‘envoutant’, na vertente de “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, mas com um recorte mais ‘feminino’. “Um Novo Despertar”, de Jodie Foster, com Mel Gibson, que entra em cartaz sexta-feira no Brasil, também estreou hoje (26) na França. O crítico de A Nous Paris deu cinco estrelas para “Sonhos Roubados” e só duas para o filme de Jodie.
Na terça, houve uma pré-estreia seguida de debate num cinema (o Accatone) do Quartier Latin, mas hoje “Sonhos Roubados” já estará em salas dos Champs Elysees, dividindo espaço e marquises com o mítico “Cinzas do Paraíso”, de Terrence Malick, vencedor da Palma deste ano, por “A Árvore da Vida”. O filme antigo de Malick está saindo em cópias novas. Finalmente, Senna. O personagem é brasileiro, o filme, não. Não importa. Para a imprensa diária da França está sendo uma descoberta. Um deles escreve que os franceses conheciam o mito de Senna por meio de Alain Prost - de quem ele foi o grande rival nas pistas. O Senna de Prost era um louco que arriscava a sua vida e a dos outros. “É bom descobrir uma figura tão intensa e tão apaixonada”, escreve um dos novos admiradores do piloto (e do filme). O Brasil e seus personagens fazem o cinema em Paris. (LUIZ CARLOS MERTEN/ Paris/AE)
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