Gênero marcado por figuras masculinas indômitas, disparando balas e palavrões na mesma velocidade em que pegam “no laço” as mocinhas indefesas, o faroeste (ou western) raramente coloca no mesmo patamar as mulheres, mas quando o faz o que se tem são obras geniais como “Era Uma Vez no Oeste”, “O Diabo Feito Mulher” e “Johnny Guitar”, este último em exibição neste sábado (1º), na Sessão Cult promovida pela Associação de Críticos do Pará, no Cine Líbero Luxardo, com entrada franca.
Cores fortes impressas com o sangue, o suor e as paixões desse filme de 1954, que destaca Joan Crawford, a pistoleira dona de saloon com um passado promíscuo vista com receio pelos moradores de uma cidadezinha no Arizona. “Johnny Guitar” é o faroeste seminal de Nicholas Ray, cineasta bissexual e maldito, visionário que criou neste filme a figura da mulher emancipada e autoritária, e que viria a criar o jovem rebelde – James Dean em “Juventude Transviada” – antevendo protagonismo sociais como o movimento feminista e a revolução sexual e estudantil.
A força de “Johnny Guitar” reside na agressividade e rivalidade de dois extremos femininos – Vienna (Joan Crawford), sempre armada e Emma (Mercedes McCambridge), virginal e dona de uma crueldade silenciosa – que antagonizam apoiadas em homens moralmente condenáveis, os pistoleiros Johnny Guitar (Sterling Hayden) e Dancin’Kid (Scott Brady). Invés do naturalismo e da expressão quase documental, fiel aos registros históricos do velho oeste, Ray adotou uma visão fantasiosa, apoiada em simbolismos como os cenários fulgurantes, os enquadramentos ousados e até alguns momentos musicais, com cantorias que se confundem com os alaridos das pistolas.
Johnny Guitar auxilia com truculência Vienna, a se livrar de rancheiros, do xerife local e lidar com os capangas de Emma, que a odeia por representar um tipo de mulher emancipada que pode conquistar o coração de quem ela deseja – Dancin’Kid, responsável pela morte do irmão de Emma – então decide colocar Vienna para fora da cidade nem que para isso tenha que duelar com ela. Tanto Johnny quanto Kid passam, num determinado ponto da trama, a assistir o confronto invés de intervir, o que ressalta a tragédia deste filme atípico que, na época não foi bem nas bilheterias, mas que se tornou cultuado por autores como Truffaut, Almodóvar e Scorcese.
Perseguido pelo MacCarthismo, Ray deixou esse faroeste também como um recado aos perseguidores, uma crítica sutil contra o conservadorismo republicano, apoiado no roteiro de E o verdadeiro roteirista, que jamais ganhou crédito pelo trabalho, era justamente Ben Maddow, um dos homens proibidos de exercer a profissão pela crença na ideologia vermelha.
SERVIÇO
“Johnny Guitar” será exibido neste sábado (2), às 16h, no Cine Líbero Luxardo, do Centur (Avenida Gentil Bittencourt, 650). Entrada franca. Após a exibição, debate com os críticos da ACCPA e o público.
(Lorenna Montenegro/Especial para o DOL)
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