Em uma região marcada pelo conflito de terra e pela luta contra a extração ilegal de madeira, Lavínia, Cauby e Ernani se envolvem em uma trama proibida, às margens do rio Tapajós, aos arredores das cidades de Santarém e Itaituba, no Pará. O triângulo amoroso que arrebatou o público do Festival do Rio, em outubro, e garantiu à Camila Pitanga o prêmio de Melhor Atriz, ganha hoje a tela do quase centenário Cinema Olympia, em Belém.
“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, longa de Beto Brant e Renato Ciasca, abre o Festival Pan-Amazônico de Cinema – Amazônia Doc.3, em sessão especial, que conta ainda com a exibição do curta premiado “Um outro ensaio”, da pernambucana Natara Ney.
Em entrevista por email, os diretores Beto Brant e Renato Ciasca, que compartilham os sets de filmagem há 27 anos, falam ao Caderno Você, do Diário do Pará, sobre a parceria duradoura, o sucesso de “Eu receberia...” e a expectativa de apresentar o longa pela primeira vez no Pará, cenário das filmagens. “Nos deixa contentes apresentar o filme num evento que mobiliza quem faz cinema em Belém”, diz Ciasca. “Inspirados em ‘Viagem a Andara, o livro invisível’, do escritor paraense Vicente Fraz Cecim, criamos uma cidade fictícia em que se encontram várias das contradições presentes no interior da Amazônia”. Confira a seguir o bate-papo.
P: O filme foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e, no mesmo festival, conquistou o prêmio de Melhor Atriz (Camila Pitanga). Como foi a recepção do público?
R: O público tem lotado todas as sessões, tanto no Rio como em São Paulo, na Mostra Internacional de Cinema. Todo o elenco está muito bem, mas a atuação da Camila é arrebatadora. A premiação dela no Rio foi unânime e inquestionável.
P: A personagem de Camila Pitanga, Lavínia, possui um perfil intenso. Como foi construí-la durante o processo de filmagem?
R: Sabíamos que seria um grande desafio dar corpo a essa personagem do Marçal. A expectativa em relação a quem faria esse papel sempre foi muito grande. Camila logo percebeu a dificuldade e se entregou com muita garra. Pesquisou muito no Rio antes de embarcar para Santarém, onde permanecemos quase quatro meses. Lá, ela se entrosou com a equipe e se concentrou para atuar da melhor forma. Para o resultado de sua performance também foi fundamental o talento dos atores que contracenaram com ela, Gustavo Machado e Zecarlos Machado.
P: O filme tem ganhado uma repercussão impressionante na grande mídia, com destaque para as cenas de nudez de Camila Pitanga. Como vocês veem a repercussão dessas cenas?
R: O erotismo é uma das grandes qualidades do livro do Marçal. Ao adaptarmos o romance, nos utilizamos da linguagem do cinema para manter a mesma tensão erótica do livro. Desde o princípio, Camila sabia da importância desse aspecto no resultado do filme. As cenas de nudez fazem parte da narrativa do filme, não estão gratuitas. Às vezes, quando se esconde demais, se demonstra menos pudor do que quando se revela com naturalidade.
P: “Eu receberia...” foi filmado, em grande parte, no interior do Pará. Que características do Estado e de seus moradores podem ser encontradas no filme?
R: A profusão de cores e a solidariedade dos moradores de Santarém, Itaituba e das comunidades ribeirinhas do Rio Arapiuns. Inspirados pelo leitura do livro “Viagem a Andara, o livro invisível”, de Vicente Fraz Cecim, criamos uma cidade fictícia chamada Andara. Nessa cidade se encontram várias das contradições presentes no interior da Amazônia.
P: O filme se passa em uma região do Pará que sofre com o desmatamento e com a presença avassaladora de madeireiras. Essa realidade está presente de alguma forma no longa?
R: Um dos personagens é o pastor Ernani, inspirado na Teologia da Libertação e no Santo Daime, um idealista que mora numa comunidade ribeirinha e se envolve na luta dos ribeirinhos contra o avanço das madeireiras em seu território.
P: Como foi a escolha das locações do filme? Por que Santarém?
R: Viajamos de carro com o Marçal, desde Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, até Santarém. Passamos por Castelo de Sonhos, Novo Progresso, Itaituba e outras. Cruzamos mais de 1500 km, ida e volta. Optamos por filmar nos arredores de Santarém pela logística de produção, facilidade de acesso e hospitalidade. O resultado no filme é de uma cidade possível no interior da Amazônia. A sequência final é retratada como Santarém, um passeio pelo porto da cidade, o movimento dos barcos e passageiros, pouco antes de começar um temporal. Uma das cenas mais belas do filme.
P: O filme será apresentado pela primeira vez no Pará, na sessão de abertura do Amazônia Doc. 3. Como vocês esperam que seja a recepção do público tendo em vista que o filme foi rodado aqui?
R: Nessa primeira sessão haverá muitos amigos e colaboradores, várias pessoas que participaram da equipe ou nos ajudaram de alguma forma. Ficamos contentes com essa oportunidade de participar, de apresentar o filme num evento que mobiliza quem faz cinema em Belém.
UM OUTRO ENSAIO
A complexidade das relações afetivas também é fio condutor do premiado “Um outro ensaio”, da pernambucana Natara Ney. O filme, que chega ao Amazônia Doc.3 com nada menos que seis prêmios na bagagem retrata o cotidiano de um casal. Ele vê a companheira ficar cega em decorrência de um acidente.
“É o amor tranquilo, que é mantido todo dia”, diz a cineasta. “É a primeira vez que ele (filme) será apresentado no Pará. Tenho uma ideia muito bidimensional da Amazônia e, quando eu for ao festival, vou poder ter uma visão em 3D”, brinca.
O Festival Amazônia Doc.3 segue com uma programação gratuita até o dia 19 deste mês, voltado à valorização e fomento da produção audiovisual do Brasil, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa e Suriname. São mostras competitivas, mostras paralelas, sessões especiais, oficinas e workshop que se desenvolvem no Cinema Olympia, Cine Líbero Luxardo, Sesc Boulevard e Colégio Ideal.
PRESTIGIE
Hoje, às 19h30, no Cine Olympia, sessão especial de abertura do Festival Pan-Amazônico de Cinema – Amazônia Doc.3. A entrada é franca. O festival é realizado pelo Instituto Culta da Amazônia e Z Produções, com patrocínio da Oi e Sol Informática, por meio da Lei Semear de incentivo à cultura do Estado do Pará, e apoio da Oi Futuro, Grupo Ideal e Ecleteca Cultural. Confira a programação completa em www.amazoniadoc.com. (Diário do Pará)
Assista ao trailer de "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", clicando no ícone abaixo:
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