Um filme de arte em 3D. Quem poderia imaginar que isso iria acontecer um dia? Fato é que a tecnologia, cada vez mais sofisticada, tornou a tridimensionalidade um recurso farto de substância estética para que grandes autores pudessem exercitar os limites do cinema. Scorcese já tinha feito Hugo Cabret, e os alemães Werner Herzog e Wim Wenders também resolveram utilizar o 3D em suas obras. Wenders disse que não conseguiria desenvolver o projeto não fosse essa tecnologia.
Pina e Wenders trabalhavam juntos no filme quando ela morreu, em junho de 2009. Depois disso, Wenders reestruturou o projeto e perguntou aos bailarinos o que cada um gostaria de oferecer a Pina. E o filme seguiu como uma desafiadora maneira de prestar homenagem ao mito da dança. A jornalista e crítica de cinema Dedé Mesquita explica que o objeto de Wim Wenders, Pina, sempre teve uma relação estreita com o cinema. “Outros documentários já haviam mostrado o trabalho dela, e Pedro Almodóvar trouxe em “Fale com ela”, um trecho com o solo de Pina no espetáculo Café Müller. Mas o que Wenders pretendia era mostrar toda a intensidade da vida e trabalho de Pina”, frisa a crítica de cinema. Para Dedé, Pina é além de arte, uma experiência sensorial de vida. “Esse filme deixou a plateia de quase 60 pessoas, durante a pré-estreia, mudas e ‘transformadas’. Fico feliz que a distribuidora Imovision teve a sensibilidade de trazer esse filme para um público maior em Belém”, diz.
Corpo em transição
Na plateia durante a pré-estreia do filme em Belém, a bailarina e coreógrafa Ana Unger ficou encantada. “Saí transformada. Após a exibição não queria falar com ninguém, só relembrar as cenas. Wenders não tentou poetizar, e sim mostrou o que era autêntico através das imagens e depoimentos dos bailarinos”, aponta.
Ana Unger diz que o artifício que o cineasta utiliza para falar de Pina é retratar a essência dela, o que estabelece uma conexão mesmo com quem não pertence ao universo da dança. Para Unger, Wenders não buscou mostrar quem era Pina Bausch através apenas das coreografias e do seu trabalho de vanguarda mas sim apontar por que o que ela fez refletiu em toda uma geração.
INSPIRAÇÃO
“Wenders combina a aspereza de elementos como terra, pedra, trânsito, folhas secas, que são “duros”, em contraposição à leveza dos bailarinos. E há cor, muita cor”, frisa a crítica de cinema Dedé Mesquita. Outro acerto, segundo Ana Unger, é a utilização dos bailarinos como narradores: “Ele poderia focar na figura dela e seu trabalho, mas passou o olhar de quem se nutriu da Pina, quem conviveu com ela e através do ensino.
Quem conhece bem o palco sabe que não é fácil capturar com excelência a arte do movimento, e Wenders além de conseguir isso, colocou as palavras dela na fala dos bailarinos, por que o mais significativo é como as pessoas recebem o discurso”, ressalta a bailarina e coreografa. “Por esses motivos, é inspirador para nós bailarinos, que sentimos o processo de laboratório, de montagem de um trabalho de dança contemporânea, a emoção dos artistas que estão em cena. Além disso, as sensações que a dança provoca, que vão além dos nossos sentimentos humanos conseguem ser traduzidas pelo 3D que transcende e provoca emoção”, simplificou a bailarina.
As questões mostradas na tela, o processo criativo aliado aos ensinamentos de Pina, serão discutidas em debate na companhia de Dança Ana Unger. “Quero que os bailarinos e alunos possam debater sobre essa parte da dança, instigar o pensamento sobre o caminho, que traz o conhecimento e provoca o resultado honesto. Hoje a maioria só quer saber do resultado final, da apresentação em si e por esse motivo vemos resultados frágeis e pobres, por falta de cuidado com a técnica e a pesquisa”, instiga.
Emoção
E por que o que Pina prega é que se ‘dance por amor’, e a sentença reverbera em quem assiste a obra de Wenders, independente de ser profissional da dança. “É na fala dos bailarinos, em off - respeitando seus idiomas originais -, e nas lembranças deles que a emoção fica mais forte. Outros deles não falam nada e deixam o olhar falar por si”, cita Dedé Mesquita. Para ela, as falas são sinceras. Sobre alguém que os ensinou a arte de viver, sobre o que é a vida em si: “E na fala final de Pina que tudo se encerra”. Ana Unger lembra foi assistir à Pina sem muitos anseios, já que, para ela, filmes sobre dança normalmente apresentam uma visão caricata e estereotipada sobre o assunto. “Poucos são os cineastas que buscam a dança como temática e são felizes ao traduzir essa linguagem em forma de cinema. Ele contribuiu de uma maneira única ao dar acesso ao legado de Pina Bausch”. (Diário do Pará)
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