Uma ex-prostituta resolve deixar uma vida ordinária para trás em troca de um recomeço numa cidadezinha pequena. Esse enredo poderia resumir algum drama daqueles bem açucarados e edificantes, que Hollywood produz com facilidade. Mas nas mãos audaciosas de Samuel Fuller, o enredo ganha contornos quase sádicos em “O Beijo Amargo”, um filme noir que não é fácil de digerir. Abordando temas como prostituição, pedofilia, aborto e corrupção policial, ele será exibido neste sábado, na Sessão Cult do Cine Líbero Luxardo.
Kelly (Constance Towers, que também está em “Paixões que Alucinam”), foge da metrópole após bater em seu cafetão e consegue um emprego como enfermeira em Grantville. Logo, ela se sente em paz e absorve um pouco da banalidade do local, além de desperta a cobiça por parte do capitão Griff (Anthony Eisley), que passa a acha-la suspeita. Mas a moça acaba caindo nas graças do playboy J. L. Grant (Michael Dante), que passa a encher de joias e proteção.
O problema é que não apenas o passado sórdido volta a perseguir Kelly – por mais que ela lute por ser uma pessoa diferente - como aquele
American Way of Life que ela vivencia logo se mostra falso. A anti heroína culta, apreciadora das obras de Baudelaire, Goethe e Lord Byron, assim como, da música de Beethoven, não se importa em continuar prestando favores sexuais para que sua paz não seja abalada.
Escrito, dirigido e produzido por Sam Fuller, é um filme cujas as reviravoltas o tornam mais atraente, cheio de aflições sinceras. Um dos mais transgressores e rebeldes cineastas de todos os tempos. O “Beijo Amargo” pode até ser considerado um típico representante do cinema noir, mas no fim acaba sendo uma experiência melodramatica e suja demais para o genero, mais dado a mulheres fatais e assassinatos misteriosos. Fuller conta uma história de redenção de maneira tão brutal e bizarra que notadamente influencia gerações de cineastas por vir: de David Lynch a Lars Von Trier.
Muito bem fotografado em preto-e-branco, é uma odisséia de mergulho em um mar cada vez mais preenchido de desgraça, que leva a protagonista a uma desilusão incontrolável com a sociedade na qual está inserida, nada mais é do que Fuller cravando o dedo nas principais feridas da América para comprovar sua tese de que o sonho americano, na realidade, é a mais pura utopia e que todos carregam a podridão em suas mentes.
O roteiro apresenta alguns pequenos problemas sem, no entanto, comprometer o desenvolvimento da trama. Em contrapartida, a direção de Fuller é consistentemente boa, no que é ajudada pelos bons desempenhos de seus principais atores. Entre estes, o grande destaque é a magnífica atuação de Constance Towers, que domina a tela do início ao fim.
SERVIÇO
A Sessão Cult apresenta “O Beijo Amargo”, de Samuel Fuller, neste sábado (8), às 16h, no Cine Líbero Luxardo - Centur, localizado na avenida Gentil Bittencourt, 650. Entrada franca. Após o filme, debate entre o público e membros da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). (As informações são da Ascom da ACCPA)
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