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CINEMA

Histórias de sonhos e lutas das mulheres

Em 1983, Maria da Penha Maia foi atingida por um tiro nas costas enquanto dormia, deixando-a paraplégica. O agressor foi o economista Marco Antônio Heredia Viveiros, colombiano naturalizado brasileiro, seu marido na época e pai de suas três filhas.

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Em 1983, Maria da Penha Maia foi atingida por um tiro nas costas enquanto dormia, deixando-a paraplégica. O agressor foi o economista Marco Antônio Heredia Viveiros, colombiano naturalizado brasileiro, seu marido na época e pai de suas três filhas. A polícia acreditou na versão do companheiro, que simulou uma tentativa de assalto para acobertar o crime. Quatro meses depois, Viveiros tentou eletrocutá-la.

A história poderia ser mais um dos inúmeros relatos de violência contra as mulheres que se multiplicam pelo país, mas a luta da farmacêutica cearense por justiça fez toda a diferença. Em 2002, seu ex-marido foi condenado a dez anos de prisão em regime fechado, apenas seis meses antes da prescrição do crime. O caso provocou mudanças no Código Penal Brasileiro, criando em 2006 a lei 11.340, a Lei Maria da Penha, determinando a garantia imediata de proteção policial e abrigo em local seguro a mulheres vítimas de violência.

O média metragem “O Silêncio das Inocentes”, de Ique Gazzola, lançado em 2010 e exibido hoje em Belém durante a programação da 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, conta esta e outras histórias de violência contra mulheres. Como o caso de uma adolescente de Fortaleza (CE), que foi agredida e obrigada a comer lixo pelo pai simplesmente por ser homossexual. Ou a senhora mineira que ao pedir o divórcio teve seu corpo ateado em chamas pelo marido.

“São histórias chocantes, revoltantes de violência. Mas são acima de tudo histórias de superação. Essas mulheres tiveram que enfrentar o medo, a vergonha e estão lutando por justiça. O filme é balanceado com o depoimento de autoridades e especialistas, explicando como funciona a lei, como aplica-lá. Justamente para dar um norte as pessoas que ainda estão passando por essa agressão hoje. É um grito de horror, mas ao mesmo tempo um grito de ajuda”, afirma a produtora gaúcha Naura Schneider por telefone de Brasília.

Ela que também assina o argumento de “O Silêncio das Inocentes”, e revela que teve a ideia ao atuar no longa “Dias e Noites” (2008), de Beto Souza, no qual interpretava uma vítima de violência.

“Após o ‘Dias e Noites’, as pessoas começaram a me procurar para se confidenciar. Contavam histórias de vizinhas, colegas de trabalho que sofriam sem poder dizer nada a ninguém. Foi então que conheci a história da Maria da Penha e sua batalha atual como ativista na proteção das mulheres. Por um ano ela me ajudou a encontrar as ONGs, os parlamentares, os juízes que militavam nesta causa. Ela foi o ponto de partida e de encontro de todas essas histórias”, diz.

Naura adquiriu os direitos autorais sobre o livro “Sobrevivi... Posso contar”, biografia de Maria da Penha. Em fase de captação, o longa “Maria da Penha – A mulher que mudou a história” deverá ser dirigido por Vincente Amorim (“Corações Sujos”, 2012) e irá se centrar em dois períodos: os anos em que ela começou seu relacionamento com Marco Antônio e durante o julgamento do ex-marido.

“A Maria da Penha não gosta de ser considerada um mártir. Ela se considera vitoriosa por ter posto o ex-marido na cadeia, mas isso não muda em nada o fato da violência que ela viveu, de não poder mais andar, das dores que sente até hoje. Ela é uma pessoa que vive muito o presente, se envolvendo com os assuntos do Instituto Maria da Penha que mantém em Fortaleza. Ela é grata pela lei, mas acha que não é bem executada, pois muitas mulheres têm medo de denunciar. Quem sabe o filme não será uma forma de ajudar ainda mais a acabar com essa omissão”, pondera Naura.

EM DOBRO

A sessão de hoje da 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos ainda conta com outro filme sobre a trajetória da ativista cearense, o curta “Maria da Penha: Um Caso de Litígio Internacional”, de Felipe Diniz. Lançado no ano passado, a produção acompanha o julgamento do caso que foi denunciado à OEA. Em 2001, o órgão internacional condenou o Brasil pela omissão.


(Diário do Pará)

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