Diz o desgastado clichê que o Brasil é o país do futuro. Dono de um futuro promissor, não tem tempo para perder com o passado. Será? “Hoje”, por sua vez, é um filme que, apesar do nome, vai buscar exatamente no passado a substância para entender o presente e escrever o futuro.
Vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2011 é o quarto longa de Tata Amaral (de “Antônia” e “Um Céu de Estrelas”), e conta a história de uma mulher que quer reconstruir sua vida após duas décadas de clandestinidade civil. Vera (Denise Fraga) perdeu o marido (o ator uruguaio César Troncoso, de “O Banheiro do Papa”) para a ditadura, mas, como ele está oficialmente desaparecido desde 1974, nem mesmo como viúva pode se reconhecer.
Em 1995, quando finalmente ele é dado como morto, ela recebe uma indenização, com a qual compra um apartamento. Vera, que passou estes anos à espera de um sinal, finalmente decide deixar de viver em suspensão e recomeçar a vida. É aí que começa seu novo hoje. E é aí que Luiz, o marido, reaparece. E ela vai ter de lidar com um passado de culpas, frustrações e dor. Em um Brasil que exuma principalmente os crimes cometidos durante a ditadura militar ao estabelecer a Comissão da Verdade (a junta para apurar violações de direitos humanos durante entre 1946 e 1988 no Brasil), “Hoje” é mais ‘’hoje’’ do que nunca.
‘FELIZ COINCIDÊNCIA’
“Foi uma feliz coincidência. A ideia do filme surgiu em 2003, quando li o Prova Contrária, do Fernando Bonassi. Não se falava ainda na Comissão, vários filmes que também tratam do tema da ditadura não haviam ainda sido feitos. Mas é interessante observar como este assunto ainda habita nosso inconsciente coletivo”, comenta a diretora, para quem a questão da perda foi de fato o grande motivador. “O sentimento de perda que a Vera vive é algo que conheço bem. E me reconheço. Quando li o trecho em que ela fala do suicídio, entendi perfeitamente o sentimento de responsabilidade, de perda, da ausência, de impotência que ela estava sentindo.”
“Há muitos filmes chilenos, argentinos sobre o assunto. Mas a gente não fala muito do tema porque joga embaixo do tapete. Não queremos encarar a verdade.” O principal diferencial de “Hoje” com relação a outros longas que já trataram do tema é o fato de não haver flashbacks. O marido, por exemplo, envelheceu junto com Vera.
“Tudo se passa no aqui e agora. Afinal, o que importa de verdade nesta história? As marcas que o período deixou na vida destas pessoas. E, consequentemente na nossa história”, diz a diretora, que relembra trecho da minissérie “Trago Comigo” (que dirigiu para a TV Cultura em 2009): “O programa resgata as memórias da ditadura. Há uma personagem que diz: ‘’A sociedade que não trata e não enfrenta a tortura é uma sociedade que aceita a tortura’’. E é isso que a gente vê até hoje, não?” .
(Diário do Pará)
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