A excelência do cinema norte-americano, um tanto alquebrada pela crise criativa que Hollywood atravessa a alguns anos, refletiu na lista de melhores filmes de 2012 elaborada pela Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), que contemplou a filmografia francesa, alemã, russa e iraniana. A eleição é uma tradição natalina que já existe há 50 anos - quase o mesmo tempo de vida da entidade -, e foi realizada na semana passada. Os críticos escolheram “A Separação” como o melhor filme de 2012. Na seleção estavam os filmes exibidos no circuito comercial e alternativo de Belém.
Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ‘A Separação’ deixa o ritmo desacelerado e contemplativo típico do cinema do Irã. Asghar Farhadi dirige e roteiriza essa história extremamente humana e tensa de um casal que está se separando, deixando a filha dividida entre que rumo tomar e que entra em conflito com a empregada grávida. O filme coleciona prêmios desde a estreia, como o urso de prata para Leila Hatami pela brilhante atuação.
“Pina 3D” é o primeiro filme de arte a se utilizar dessa tecnologia, para homenagear a vida e obra da coreografa e bailarina alemã Pina Bausch. Dirigido e roteirizado pelo compatriota Wim Wenders, é uma belíssima realização, um recorte amoroso e vigoroso de imagens que bailam na tela, emoções dos principais colaboradores dessa grande artista que executam suas criações com uma carga emocional tátil. “Pina” só chegou a Belém graças a um esforço conjunto da associação juntamente com a distribuidora Imovision e a rede de cinemas Moviecom, mas não cativou o público local e fracassou na bilheteria.
O terceiro filme a alcançar o topo da lista foi o russo “Fausto”, de Alexandr Sokurov, uma releitura do conto medieval sobre um famoso médico alemão que vende a alma a Mefistófeles, o diabo. E por falar em literatura, “A invenção de Hugo Cabret”, “Drive”, “Precisamos falar sobre o Kevin” e “Cosmópolis” são bons exemplos de adaptações literárias interessantes, que também estão na lista.
Scorsese dá vez ao onírico em “Hugo”, promovendo uma viagem sentimental aos primórdios do cinema, através da mística do pioneiro Georges Meliés. Já “Drive” imprime vigor sob uma roupagem oitentista da violência e incomunicabilidade, na persona de um solitário motorista. A trilha sonora do filme também foi eleita a melhor pela ACCPA, assim como a canção “A Real Hero”.
Uma mãe e um filho estão no olho do furacão em “Precisamos falar sobre o Kevin”, obra de Lionel Shriver que investiga a psiquê de um jovem que assassina dezenas de pessoas e cuja adaptação cinematográfica é extremamente perturbadora, com Tilda Swinton eleita como melhor atriz pelo papel da mãe de Kevin. David Cronenberg dá um salto para o futuro em “Cosmópolis”, colocando Robert Pattinson como um bilionário entediado que atravessa Manhattan em sua limousine, apenas para cortar o cabelo mas é envolvido em acontecimentos dissonantes.
INTERPRETAÇÕES
Michael Fassbender foi considerado na eleição o melhor ator por “Shame”. Na pele de um homem que tem sua vida consumida pelo sexo, ele provoca uma sorte de sentimentos múltiplos, num filme visceral que ainda conta com a bela atuação de Carey Mulligan (melhor atriz coadjuvante). Maior bilheteria da história da França, “Intocáveis” teve uma passagem ligeira pelos cinemas de Belém. A força desse filme reside nas cativantes interpretações de François Cluzet e Omar Sy (eleito um dos melhores atores coadjuvantes do ano) como dois homens de classes, cores e pensamentos diferentes que se unem numa amizade sem barreiras.
Exibido dentro da programação do centenário do Cine Olympia, o grande vencedor do Oscar deste ano, o meigo “O Artista”, também está na lista dos melhores do ano. A obra apresenta o drama de um ator (Jean Dujardin) que tem que fazer a transição do cinema mudo para o falado.
Melhor animação foi para “Valente”, filme da Pixar que conta uma fábula sobre uma princesa que não quer assumir a sua função real. “Transeunte”, documentário experimental e bastante delicado de Eryk Rocha, herdeiro de Glauber, foi considerado o melhor filme brasileiro.
Os críticos Luzia Álvares, Pedro Veriano, Marco Antônio Moreira, Dedé Mesquita, Augusto Pacheco, Arnaldo Prado Jr., José Otávio Pinto, Francisco Cardoso, Fernando Segtowick, Raoni Arraes, Elias Neves e Lorenna Montenegro votaram ao todo em quinze categorias, que também tiveram contabilizados os votos de Maiolino Miranda e Ismaelino Pinto.
(Diário do Pará)
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