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CINEMA

Documentário retrata a cor da desigualdade

A discussão sobre questões raciais vez em quando desponta na mídia e nas artes respingando aqui e ali algumas reflexões. Há de se enumerar muitos avanços no debate. Políticas públicas, tabus derrubados, olhares coerentes e sensíveis sobre o assunto são po

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A discussão sobre questões raciais vez em quando desponta na mídia e nas artes respingando aqui e ali algumas reflexões. Há de se enumerar muitos avanços no debate. Políticas públicas, tabus derrubados, olhares coerentes e sensíveis sobre o assunto são pontos positivos, acumulados ao longo de uma trajetória de luta. Porém, é inquestionável: muitos estigmas ainda pairam sobre os negros. A grande maioria deles, inclusive, sedimentados por uma estética “branca”, reproduzida pelos meios de comunicação e nas expressões artísticas.

Na contra-maré de uma corrente delimitada por cores, o cineasta mineiro Joel Zito já rema há pelo menos vinte anos. Seus trabalhos em audiovisual trazem para a telona de forma clara e crítica um pouco dos elementos que cercam o caloroso debate. E para alimentar o importante bate-boca, ele vai do ficcional ao realismo, em produções como “As Filhas do Vento” (2004) e “Alma Negra da Cidade” (1990).

Agora, nasce mais um filho: depois de seis anos produzindo o novo trabalho, que conta com co-direção da americana Megan Mylan, chega a hora de apresentá-lo ao mundo. De título sucinto e direto, o documentário “Raça” traz um vitral de histórias reais e mais uma vez mostra o olhar minucioso de Joel Zito. E Belém não poderia ficar de fora do lançamento. Na próxima sexta, 25, o documentário será exibido na Casa da Linguagem, com direito a presença do cineasta. A seguir, confira um papo com um dos maiores fomentadores do debate racial no país.

No olho do furacão

P: “Raça”. O que vamos encontrar nesse documentário?

R: Bom, o documentário mostra o resultado da nossa busca por algumas pessoas que estivessem no epicentro do debate racial no país. Quem narra a história são os acontecimentos da vida dessas pessoas que escolhemos. Essa é a boa surpresa do filme que oferecemos para o público. Nele, o espectador vai acompanhar o resultado de cinco anos de filmagens na vida do cantor e empresário, e agora político, Netinho de Paula, tentando criar uma TV Negra, a TV da Gente. Acompanhamos também uma mulher do povo, do norte do Espírito Santo, Dona Miúda, que busca em seu microcosmo lutar pelo reconhecimento do seu direito à terra e preservação de sua cultura quilombola. Creio que este é, também, o primeiro documentário que passou três anos nos corredores do Congresso acompanhando um senador da república, Paulo Paim, e mostrando a complexidade da vida de um político e suas negociações na tentativa de aprovação de uma lei de interesse do povo negro. O filme acompanha o protagonismo de Paulo Paim na aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, como também o antagonismo do Senador Demóstenes Torres que foi contra qualquer medida a favor de políticas afirmativas no Brasil.



P: O documentário teve um período de produção bem extenso, seis anos. Por que o filme demorou tanto para sair? Dificuldade com recurso, logística? Necessidade de amadurecimento da ideia?

R: “Raça” demorou seis anos para ficar pronto em decorrência de nossa concepção. Ele é um típico filme de cinema direto. Realmente, conseguir imagens e momentos relevantes para contar esta história exigiram um tempo grande. A questão de recursos sempre pesa, mas este filme é uma coprodução com a Príncipe Productions, e uma co-direção com a norte-americana Megan Mylan. Isto facilitou muito a captação de recursos nos Estados Unidos. O Brasil, infelizmente, entrou com pouca grana.



P: O filme mostra bastante como a mídia projeta o debate racial no país - tema já recorrente na sua produção. Com base nesse mergulho que fazes há anos, o que apontas como principal causa de uma estigmatização do negro na grande mídia?

R: A mídia é um dos elementos do filme, tanto acompanhado a criação e os problemas para manter um canal voltado para a população negra, no caso da TV da Gente, quanto na observação do papel ativo da mídia no debate racial, especialmente reagindo diante das ações do Senador Paulo Paim. Mas, digamos, que este tema ocupa cerca de trinta por cento do filme. Ele vai além. Tem histórias pessoais e humanas muito bonitas que pudemos acompanhar, filmar, testemunhar.

Creio que a questão racial é, entre os nossos problemas históricos que persistem, aquele que mais sofre diante dos tabus e da dificuldade nossa, de brasileiros, em enfrentar o passado. Considero que o desejo de sermos uma democracia racial é uma coisa muito saudável, mas continua sendo apenas um desejo. Para chegarmos a isto temos de enfrentar o racismo que atrapalha o bem-estar e as possibilidades de ascender socialmente que tem milhares de jovens afro-brasileiros e índio-descendentes. Acho que tenho um pouco deste papel, de ajudar, através do cinema, o país a enfrentar estes tabus.



P: O “Raça” traz histórias de pessoas. São três personagens, oriundos de partes diferentes do Brasil. Com essa pluralidade retratada, é possível traçar algum tipo de perfil nesses estados? Apontar diferenças e semelhanças que perpassem espaços distintos do nosso país?

R: Filmei em três estados muito diferentes entre si: o Rio Grande do Sul, o Espírito Santo e São Paulo. Filmei com negros que chegaram à condição de classe média alta, um senador e um cantor-empresário. Filmei com uma mulher do povo, que representa a realidade da maioria do povo e da mulher negra brasileira. Existe realmente muita pluralidade de vivências. Mas todos eles sofreram e sofrem com o racismo. Infelizmente, o racismo no Brasil é uma coisa muito democrática, atinge negros e índios ricos e pobres, mulheres e homens, jovens e idosos. Temos diferenças, mas são irrelevantes, pois vivemos debaixo do mesmo inconsciente racista colonial. Continuamos sendo um país colonizado, apesar dos avanços dos últimos dez anos.



P: Você mesmo salientou que o filme conseguiu captar bons recursos nos Estados Unidos, mas pouca grana no Brasil. Em 2012, foi lançado um pacote de editais voltados para produtores culturais e artistas negros. Trata-se, de fato, de uma abertura e estímulo ao pensamento artístico e cultural voltado para a raça negra?

R: Eu diria que trata-se de um estímulo para incentivar a diversidade de pontos de vista na produção cultural brasileira. São editais que ajudam a todos, que ajudam também a construir um país melhor, mais humano. E ajuda o mercado, pois fomenta a formação de realizadores negros para atender uma potencial demanda de criadores e de produtos para a nova lei da TV paga. Assim como atende o mercado publicitário que precisa trazer a diversidade racial que temos na sua representação sobre o Brasil, ainda muito branqueada.



P: Pensando nessa questão, como você normalmente sustenta o seu trabalho? Como quem pensa e produz tendo como ponto de partida a discussão racial no Brasil consegue escoar esses produtos?

R: Sim, eu gosto de ajudar a fomentar este debate. Mas tenho me tornado um pouco pessimista. Acho que vivemos um tempo de uma onda muito conservadora e consumista. A minha juventude foi marcada pela procura de obras culturais e de experiências voltadas para o amadurecimento de nossa civilidade, de humanidade, de nossa solidariedade com os mais fracos. Sonhávamos com um mundo mais justo, mais fraterno. Acho que o mundo atual está muito materialista. A felicidade hoje é simplesmente consumir, é se entupir de fast-food e comprar roupas de marcas e um carro “manero”. O reflexo nas salas de cinema é que o público procura por filmes fast-food, que não incomodam, que não fazem pensar. Estou começando a me sentir fora de moda.



CARREIRA

Cineasta, pesquisador, escritor e roteirista, nasceu na cidade de Nanuque (MG), em 1954. Começou a carreira dirigindo documentários de curta e media-metragem que mantinham o foco nos problemas da sociedade brasileira. Em 1999, finalizou seu primeiro longa, o doc “O efêmero estado”. Dois anos depois, lançou “A negação do Brasil”, escolhido melhor filme brasileiro do É Tudo Verdade daquele ano, tendo sido também selecionado para vários festivais internacionais. Em 2004, finalizou seu primeiro longa de ficção, “Filhas do vento”, que ganhou oito prêmios no festival de Gramado, entre eles, melhor filme segundo a crítica, melhor diretor, ator e atriz.

ASSISTA

Pré-estreia do filme “Raça”, com a presença de Joel Zito. Em Belém, nesta sexta-feira, 25 de janeiro, às 19h, na Casa da Linguagem. Entrada Franca.

O evento é uma realização do Governo do Estado por meio da Fundação Curro Velho/Casa da Linguagem, Universidade Federal do Pará, Cedenpa, Assessoria da Diversidade Ético Racial e Casa Brasil África.

(Diário do Pará)

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