Quando desligamos o Facebook e voltamos nossos olhos para a realidade que nos cerca, o cotidiano, descobrimos que por baixo desse tapete de relações virtuais ufanistas existe uma realidade outra, em que as relações são tensas e emulam códigos sociais tão arcaicos quanto ignorados por nós. É como se fossem o DNA do nosso corpo social.
A sociedade brasileira superou em diversos aspectos superficiais a sua relação constitutiva tão bem diagnosticada pelo pernambucano Gilberto Freyre na obra “Casa Grande e Senzala”. Mas o gene permanece, e continuamos reproduzindo esse conteúdo recalcado na nossa vida urbana, nas relações com o patrão, com o porteiro, com a vizinha, com a empregada, com os filhos. E revelar conteúdos recalcados é algo que a arte e o cinema em particular, com sua capacidade de expressão, faz melhor que ninguém, pois não se propõe didático, ao contrário, nos conta uma história e nos conduz, inocentes, ao encontro com a verdade que escondemos debaixo da nossa realidade.
O filme “O som ao redor” não é um espetáculo visual, um show de efeitos, uma montanha russa de emoções. É um filme tenso, como uma tocaia, onde ficamos à espera de uma explosão de violência que não sabemos nem quando nem de onde virá. Mesmo quando aparece em sonho, não sabemos se é real ou não. Atravessá-lo é vivenciar esse DNA da nossa sociedade, é aprender a reconhecê-lo nos aspectos mais prosaicos do nosso dia-a-dia.
ASSISTA
‘O Som ao Redor’, de (Kleber Mendonça Filho, Brasil , 2012, Drama, 131 min). Classificação: 16 anos. Hoje e amanhã e nos dias 2 e 03 de março, sempre às 21h, no Cine Líbero Luxardo. Ingressos: R$ 8 (meia entrada para estudantes). A bilheteria abre uma hora antes das sessões.
(Manoel Leite Jr, psicanalista e estudioso de cinema, especial para o Diário do Pará).
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar