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CINEMA

Obra de Tati à mostra no Sesc Boulevard

Jacques Tati (1907-1982) era um homem deslocado da sua realidade. Mesmo após a invenção do cinema falado, ganhou fama por um personagem que não dava um pio, Hulot, o mímico desengonçado interpretado pelo próprio diretor francês. Também não se encaixava em

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Jacques Tati (1907-1982) era um homem deslocado da sua realidade. Mesmo após a invenção do cinema falado, ganhou fama por um personagem que não dava um pio, Hulot, o mímico desengonçado interpretado pelo próprio diretor francês. Também não se encaixava em meio aos seus contemporâneos da Nouvelle Vague. As comédias que remetiam à simplicidade dos tempos de Chaplin destoavam do experimentalismo e do discurso politizado de Jean-Luc Godard e François Truffaut.

“Justamente por ter construído um jeito muito particular de dirigir que Jacques Tati meio que caiu no esquecimento hoje. Parece que faltou um grande movimento por trás pra impulsionar o nome dele como foi o caso dos artistas da Nouvelle Vague. Soma-se a isso o fato de que morreu na falência, por alguns fracassos de bilheteria”, conta Guimarães Neto, que irá ministrar o curso “Retrospectivas sobre o Cinema Francês”, durante a mostra ‘Tati por Inteiro’.

Entre a fantasia e a crítica, o riso

Promovido pelo Sesc Boulevard, o evento dedica uma retrospectiva a Tati que inclui seis longas, três curtas e um documentário, “Tati: Segundo os passos do Sr. Hulot” (1986), de Sophie Tatischeff, filha do cineasta.

Um dos destaques da programação fica por conta de “Meu Tio”, de 1958. Primeiro longa em cores do diretor, a obra também marcou a consagração internacional de sua carreira, já que lhe rendeu o Oscar de melhor filme estrangeiro.

O filme conta a história de um garoto de oito anos dividido entre o pragmatismo dos pais e o jeito sonhador do tio Hulot. Em companhia de seu sobrinho, ele vive uma série de situações que ridicularizam o culto à modernidade tecnológica do final dos anos 50.

A premissa se repete em “Tempo de diversão” (1967), que mostra Sr. Hulot em uma série de desventuras enquanto acompanha um grupo de turistas americanos, perdidos pelas ruas de uma Paris moderna.

“Muitos críticos costumam comparar Tati com uma espécie de Charles Chaplin do cinema francês. Há um quê de existencial, quase melancólico, no jeito de fazer comédia de ambos. O Hulot é como Tati, um peixe fora d’água no cinema, avesso a impessoalidade da tecnologia, que fantasia uma França passada e bucólica”, afirma Guimarães.

Uma curiosidade ajuda a ilustrar a excentricidade do diretor. Antes de se tornar ator, foi jogador de rugby na liga semi-profissional francesa nos anos 1920, ganhando destaque por seus 1,91 metros de altura. “Era literalmente uma criança presa no corpo de um adulto”, diz Guimarães Neto.

Um gênio desconhecido

Guimarães Neto palestrante argumenta que o desconhecimento da obra de Jacques Tati não é a única injustiça com o cinema da França. Pioneiros como os irmãos Lumière e Méliès ajudaram a definir a expressão artística ainda no século XIX.

Foi no país, inclusive, que a técnica ganhou status de arte, com o movimento Impressionista ou Avant Garde, nos anos 1920. Ideia que viria influenciar toda a Nouvelle Vague na década de 1950, formada por críticos da revista Cahiers du Cinéma.

“No começo, o cinema era visto apenas como uma novidade, entretenimento barato. Foram os cineastas franceses que mostraram as potencialidades dessa ferramenta, como poderia ser usada para contar histórias, se expressar. Décadas depois, a nouvelle vague lembrou mais uma vez que o cinema não se resumia às produções comerciais feitas por Hollywood, que filmes podiam ser obras de arte cheias de significado”, afirma Neto.

O curso “Retrospectiva sobre o Cinema Francês”, que inicia no dia 17, se propõe a revelar um pouco dessa importante história. O curso será dividido em quatro dias, cada módulo expõe um período como o Impressionismo, o Surrealismo, Realismo Poético, Nouvelle Vague e a produção contemporânea.

“Depois de ter vivido tantos ciclos em sua produção, fica difícil classificar a produção francesa atual. Como é o caso de Michael Haneke [diretor austríaco radicado na França], que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano com “Amor”. Ele faz filmes pessoais, íntimos, às vezes brutais, mas que não deixam de ter apelo junto a uma grande plateia. Assim é o cinema francês hoje, uma coisa híbrida, entre o autoral e o comercial, tentando achar seu lugar mundialmente. Por isso resgatar o passado é tão importante, te dá uma perspectiva do que o cinema francês ainda pode ser”, diz o estudioso.

MOSTRA

A mostra “Tati por Inteiro” começa nopróximo dia 16, às 19h, com a exibição do documentário “Tati: Segundo os passos do Sr. Hulot”, no Centro Cultural Sesc Boulevard (Boulevard Castilho França, 522). O evento segue até o dia 24, com sessões às 19h. A entrada é franca. Contatos: 3224-5305 e 3224-5654. Para maiores informações, acesse: sescboulevard.blogspot.com.

OFICINA

As inscrições para a oficina ‘Retrospectiva sobre o cinema francês’ podem ser feitas até o dia 16 no Sesc Boulevard. As atividades ocorrem entre os dias 17 e 20, sempre das 10h às 13h. A inscrição também é de graça.

PROGRAMAÇÃO

Dia 17 - “Carrossel da Esperança”

Dia 18 - “Meu Tio”

Dia 19 - “As Férias do Sr. Hulot”

Dia 20 - “Tempo de Diversão”

Dia 21 - “As Aventuras do Senhor Hulot no Trânsito Louco”

Dia 23 - “Parada”

Dia 24 - Curtas “Cuida da tua esquerda”, “A Escola dos Carteiros” e “Curso Noturno”

(Diário do Pará)

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