<p>A ideia inicial era recontar a historia do cinema na Amazônia do século 20, mas o cineasta Eduardo Souza começou a descobrir viajantes que passaram por Belém muito antes desse período com equipamentos como a lanterna mágica (considerada antecessora dos aparelhos de projeção modernos), os cosmoramas e polyoramas (aparelhos ópticos). “Eles simulavam sombra, luz, animavam fotografias, eram usados em espetáculos de mágica. Vi que tinha algo bem mais interessante aí, o pré-cinema”, diz ele. </p>
<p>E assim a pesquisa começou a tomar outro rumo. Eduardo começou a procurar pelo trabalho de historiadores que abordavam esse período, como Vicente Salles e Ary Bezerra Leite. Descobriu que os viajantes eram pessoas que estavam de passagem. Nesta época, 1870, Belém vivia o auge da borracha e se tornou porto principal das Américas, o que explica esse fenômeno. </p>
<p>“Os artistas que vinham para as Américas desta época até início do século 20, todos passaram por aqui, todos mesmo!”, conta, e destaca a história do francês Faure Nicolay. “Como mágico, Faure apresentou-se até para Napoleão III e aqui fez sua mágica no Theatro da Paz. Aportou em Belém antes de chegar a Recife, Porto Alegre e mesmo ao eixo Rio-São Paulo”.</p>
<p>E de tantas curiosidades descobertas, nasceu “Olhos d´Água - Da Lanterna Mágica ao Cinematographo”. O longa-metragem é a lapidação de 12 anos de mergulho nessa história, que, com a realização da produtora Mekaron Filmes, finalmente chega até o público paraense. Serão duas sessões de lançamento, hoje e amanhã, às 17h, no Cinema Olympia, com entrada franca. <br /> <br /> <strong>Personagens que rendem séries</strong></p>
<p>Eduardo Souza começou seu projeto querendo produzir um média-metragem, que acabou se tornando um longa. Mesmo assim, muita coisa não coube nele. Resultado: este será o primeiro de uma série de documentários que vai falar da história do cinema de Belém, por décadas, até chegar aos anos 1980. </p>
<p>“Descobrimos muitas curiosidades, já estamos com material pra uns três filmes”, comemora o diretor. O próprio final deste primeiro capítulo deixará o gosto de “quero mais” no público, pois nele são apresentados dois personagens que podem render até trabalhos à parte da série.</p>
<p>O primeiro deles é o catalão Ramon de Baños, que chegou aqui em 1911 contratado por outro catalão, Joaquin Lopes, primeiro dono de cinema de Belém, o Cine Odéon. Empresário, Lopes viu no cinema uma forma de divulgar o trabalho que tinha com a venda da borracha e acabou criando, ao trazer Ramon para cá, nossa primeira produtora de audiovisual, a Pará Films.</p>
<p>O documentário de estreia de Ramon foi “Desembarque do Eminente Dr. Lauro Sodré”. “Tudo deste filme foi absolutamente perdido e tem mil historias do que pode ter acontecido, mas não perdi a esperança de encontrá-lo. Em uma viagem pelo interior do estado, o Ramon pegou malária e voltou para a Europa. Deixou todos os filmes aqui porque pensava que voltaria, mas não voltou, e assim eles se perderam”, conta Eduardo. </p>
<p>O segundo personagem que fecha a narrativa do filme é o paraense Syn de Conde, primeiro ator brasileiro a trabalhar em Hollywood, nos filmes de D. W. Griffith, um dos mais importantes diretores da história do cinema. “Enviado pelo pai para estudar na Suíça, ele era extravagante, dançarino. Ali ele conheceu uma atriz que o levou para os Estados Unidos e ficou lá, de onde mandava cartas para o pai usando selos da Suíça”, explica Eduardo.</p>
<p>“Tem até uma história curiosa... Foi um amigo do pai de Syn quem o viu em um filme no Olympia, puxando um camelo em ‘A Chama do Deserto’. O pai obrigou o ator a voltar. No acervo do Museu de Arte Moderna no Rio há uma carta de Charlie Chaplin enviada para o ator, ele já tinha muitos amigos desta estirpe por lá”, revela.</p>
<p>A trilha sonora também faz um belo resgate que pode ter desdobramentos. O autor dela é Leonardo Venturieri, que há algum tempo pesquisa sobre Clemente Ferreira Júnior, que foi maestro oficial do Cinema Olympia e amigo pessoal de Carlos Gomes. Leonardo é bisneto de Clemente, e conseguiu recuperar muitas de suas partituras, criando novos arranjos e composições que foram utilizadas em parte do longa.<br /> <br /><strong> BELÉM PELO MUNDO</strong></p>
<p>Até conseguir o que precisava para o filme, Eduardo precisou fazer inúmeras viagens e visitas a museus, filmotecas e bibliotecas, em um incansável trabalho. “Demorei anos pra começar a encontrar algumas coisas”, comenta. As pesquisas passaram até pela Catalunha, comunidade espanhola. “E foi na Europa que comecei a encontrar cartazes de cinema e espetáculos mágicos que estiveram aqui em Belém”.</p>
<p>Outros recursos foram diversas fotos da cidade, já que por volta de 1890 começamos a receber também muitos fotógrafos em nossos portos.</p>
<p>“Existe muito acervo fotográfico espalhado pelo mundo que retrata Belém! Encontrei nos Estados Unidos, Espanha e em outros estados do Brasil. É triste ver que temos tão pouca memória preservada aqui. Dos documentários de Ramon, há tudo o que ele produziu antes e depois de Belém, mas nada do que tenha feito enquanto esteve aqui”, lamenta.</p>
<p>(Diário do Pará)</p>
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