Hoje tem início em Minas Gerais a Mostra de Cinema de Tiradentes e, na abertura, a pré-estreia de um filme bem amazônico: “Órfãos do Eldorado”. Baseado no romance homônimo de Milton Hatoum e rodado em Belém, o filme traz no elenco a paraense Dira Paes, grande homenageada da mostra pelos 30 anos de carreira e pela entrega da atriz ao cinema.
Dira estreou na sétima arte em 1985 na produção internacional “A Floresta Das Esmeraldas”, de direção do norte-americano John Boorman, e depois somou 37 longas-metragens em sua carreira. “Órfãos do Eldorado” é um deles. “O filme que foi rodado em Belém tem grande elenco paraense, como Adriano Barroso, e outros atores como Daniel Oliveira, e eu terei orgulho de ver este filme na mostra. Estou muito feliz em receber essa homenagem”, alegra-se Dira, em entrevista exclusiva ao Você.
“Órfãos do Eldorado”, rodado em 2013, é apenas um dos projetos da atriz que brilhou em 2014 na TV, no cinema e no teatro. “Foi um ano muito especial e formidável, porque tive logo de presente a atuação em ‘Amores Roubados’ e pude dar continuidade ao trabalho com o a mesma equipe em ‘O Rebu’, além do longa ‘Redemoinho’, dos diretores José Luiz Villamarim e Walter Carvalho. Então meu último foi ano com essa equipe dos sonhos”, comemora.
Para quem não lembra, ela viveu Celeste na minissérie “Amores Roubados”, no início do ano passado e, já no primeiro capítulo, protagonizou uma cena muito sensual, com direito a nudez ao lado do galã Cauã Reymond.
Depois disso a paraense estrelou a badalada “O Rebu”, no papel da policial Rosa, e mais uma vez a boa forma da atriz e sua maravilhosa interpretação chamaram a atenção do público.
“Cada personagem traz um universo diferenciado e eu sempre faço pesquisas para me apropriar desse universo. Preciso entender que eu tenho que ser dona dele e estar nele, trazendo esse outro mundo para o meu. A Rosa, por exemplo, era uma policial civil, então tive que aprender sobre o manejo de armas, além de um linguajar diferenciado, um comportamento e emoções próprias desse trabalho”, explica Dira.
“Fiquei muito feliz de fazer a Celeste, até porque o personagem atravessou e alcançou a sensualidade que pretendia, que era combiná-la com furor. Mas isso não é o foco da minha vida. Acho bom ter esse olhar sobre a maturidade e a relação com o corpo, mas as pessoas precisam entender que os tempos mudaram e mulher não tem mais prazo de validade. O que faz uma mulher bonita é ela transbordar vivacidade, um sorriso e olhar bonito. Isso vale mais do que barriga tanquinho. Até porque, não adianta ter um tanquinho e não ter nada interessante no olhar. Autoestima tem que ser trabalhada ao longo da vida”, revela a atriz, com a sabedoria de quem já tem três décadas de experiência.
“Me emociona ver que uma geração me acompanha e cada um lembra de um personagem. Sou parada na rua para comentarem sobre personagens que fiz há 15 anos, e isso me comove. Os cinéfilos me reconhecem pela Dona Helena, de ‘Dois Filhos de Francisco’. O grande público lembra desde a Norminha, de ‘Caminho das Índias’, até a Solineuza, de ‘A Diarista’, ou a Rosa, do ‘Rebu’, e isso é um presente inenarrável”, comenta a atriz.
Além desses papeis importantes na TV, Dira também esteve wm 2014 no teatro com “A Caligrafia de Dona Sofia”, seu primeiro infantil. “Vivi um looping de emoções que me tornou mais realizada como atriz. Trata-se de um teatro infantil muito delicado, que relaciona poesias e crianças, valorizando a escrita, aquela tradicional com papel, algo que está se perdendo”, pontua Dira, que pretende encenar a peça por aqui este ano.
Este é um dos sinais de que a atriz, há tantos anos radicada fora, quer estreitar ainda mais os laços com a cidade que visita de quatro a cinco vezes por ano para reencontrar a família, os amigos e mostrar a cultura paraense ao filho.
“Meu filho se sente paraense. Ele conhece as lendas paraenses e se interessa por tudo. Eu tenho orgulho disso e tento defender o que acho que é importante. Este ano quero estar mais ao lado dos que não têm voz e ajudá-los com minha visibilidade a dar voz a eles”, avisa a artista, que se diz preocupada com o tratamento que a cultura paraense tem recebido no estado.
“Me preocupo com artistas paraenses, principalmente o pessoal do teatro, que vem sofrendo com a falta de amparo. Eu sei que o que se produz aí é ótimo. Quando vou a cidade, tenho acesso a ótimas peças. Acho que o secretário de cultura deve olhar para aqueles que fazem parte do alicerce da cultura paraense, assim como as empresas devem incentivar mais. As pessoas não se dão conta que cultura é necessidade primária, uma questão de sobrevivência humana. O homem não vive sem arte, fotografia, artes plásticas, teatro, música. Todo mundo ama a Dona Onete ou o Mestre Curica, mas eles não são respeitados como deveriam ser. Eles são reis e rainhas da cultura do Pará e, em 2015, quero estar mais presente neste sentido”, planeja Dira, que goza de merecidas férias da TV Globo, mas espera já para abril um trabalho novo, do qual não pode revelar detalhes.
(Diário do Pará)
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