A partir deste domingo, quem for ao Cine Olympia entrará em contato com o universo singular de Werner Herzog . A mostra “Sou o Que São Meus Filmes” exibe um apanhado geral de alguns dos principais filmes do diretor. Herzog é contemporâneo de alemães como Rainer Werner Fassbinder, Edgar Reitz, Volker Schlöndorff e Alexander Kluge, mas criou um estilo próprio, isolado, em que documentário e ficção são mesclados e os personagens humanos estão no limiar, em fronteiras perigosas de serem cruzadas. Herzog caminhava na borda.
Em “Hércules” (1962), filme que a abre a mostra, ao invés de representar um herói grego, Herzog usa transgressões clássicas que delimitam os limites do documentário para abordar um de seus assuntos favoritos: o ridículo dos heróis degradados. Em “Sinais de Abismo”, por exemplo, curandeiros da Sibéria que se autodenominam redentores e se fazem passar por sucessores de Cristo viram personagens de Herzog, que investiga o misticismo e as exposições messiânicas na Rússia. Além disso, ele desvela a lenda da cidade perdida de Kitezh, localizada no fundo de um lago, pertencente ao folclore russo.
Herzog pode ser considerado uma espécie de pesquisador etnográfico e viajou à região sul do Sahara para tratar do povo Wodaabe em “Pastores do Sol” (1989). Ele dedica atenção principal aos rituais de namoro e conquista, sobretudo ao Gerewol, uma espécie de “concurso de beleza” em que homens jovens se esforçam para serem notados através de maquiagem e movimentos corporais. Já em “Últimas Palavras” (1968), Herzog conta a história do último homem a deixar a ilha de Spinalonga, conhecida por ser um reduto de leprosos. O personagem se recusou a abandonar a ilha e foi, então, forçadamente tirado de lá. Ele agora se mudou para Creta, onde toca lira num bar durante a noite e se recusa a falar.
Em “Gesualdo - Morte para Cinco Vozes” (1995), Herzog narra um fantástico lado da vida de Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. Gesualdo foi uma figura misteriosa e obscura, feiticeiro e alquimista, cujo hobby era fazer experiências com cadáveres. Matou brutalmente a mulher quando a apanhou na companhia do amante. Depois mumificou os dois e colocou-os na entrada do palácio de Nápoles, onde o fato ocorreu. Em “Mediadas Contra Fanáticos” (1969) Herzog brinca com o gênero documentário ao colocar um falso personagem para atrapalhar a história sobre cuidadores de cavalos de corrida.
Em “La Soufrière” (1977), Herzog vai, mais uma vez, a uma situação limite. Ao saber que a ilha de Basse-Terre, em Guadalupe, foi evacuada devido a uma possível erupção do vulcão La Grande Soufrière, o diretor viaja ao local deserto para encontrar um camponês que se recusou a sair. Por fim, fechando a mostra, “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972). No enredo, Gonzalo Pizarro envia uma expedição para encontrar e tomar posse do enigmático “El Dorado”, um lugar cheio de ouro e riquezas. Deixando as montanhas do Peru, os conquistadores rumam em direção ao rio Amazonas, e logo começam a enfrentar os perigos e dificuldades da selva.
(Diário do Pará)
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