Quantos momentos fundamentais para a cena cineclubista e a produção cinematográfica paraense não teriam ocorrido se um único homem não existisse: o escritor e crítico de cinema Pedro Veriano. Como em seu filme favorito, “A Felicidade Não se Compra”, um clássico natalino de 1947, um anjo poderia mostrar através de flashbacks os momentos em que sua presença e paixão pelo cinema influenciaram toda uma geração de amigos e admiradores da sétima arte, e os momentos em que fez seus vizinhos se sentirem atores de Hollywood.
De 1950 a 1984, Pedro Veriano manteve na garagem da sua própria casa o cine Bandeirante, fazendo a exibição de filmes, promovendo debates e auxiliando a criação de outros cineclubes em Belém, como o pioneiro Os Espectadores, que reunia figuras como o filósofo Benedito Nunes e a esposa, a teatróloga Maria Sylvia Nunes. Foi responsável ainda pela prévia do filme “Um Diamante e Cinco Balas”, do amigo Líbero Luxardo, lançado em 1968.
“No primeiro filme que eu vi – ‘Branca de Neve e os Sete Anões’ –, eu tive medo da sala escura [do cinema]. Então me levaram pra sala de espera e eu assistia de lá, espiando pela cortina. Desde aí, ia sempre às matinais de domingo, no Olympia, que era perto de casa. Tinha uma época que eu via mais filmes do que havia dias no ano. Eu via de tudo, desde clássicos, que eu não entendia direito, até faroeste, mexicanos...”, rememora Veriano, que hoje completa 80 anos, ou como ele prefere dizer: “Zero oito, no espelho”.
E não foi só como espectador que ele se relacionou com o cinema. Aos 14 anos, quando ganhou do pai uma câmera 16mm, também se aventurou como diretor, mesmo sem saber nem o que era um fotômetro, instrumento básico com que se mede a intensidade de uma fonte luminosa. Ele conta que a única coisa que aprendeu foi que “filmando com diafragma [abertura da câmera] em ‘f11’ durante o dia, na luz do sol, dava foco em qualquer lugar”, e assim saiu fazendo suas próprias produções caseiras, cujas estreias eram na tela do seu cine Bandeirante. “As pessoas da minha rua eram os atores. Era uma verdadeira Hollywood!”, brinca, saudoso.
Apesar do muito que leu e escreveu sobre o tema, Pedro Veriano garante que aprendeu mais cinema vendo do que lendo, e que algumas coisas tão comuns no dia de hoje não eram da mesma forma em sua juventude. “Na época você pouco sabia nome de diretor. Havia um foco maior nos atores, até no cinema mudo”, recorda. E cita o italiano Rodolfo Valentino (1895-1926), o primeiro galã do cinema americano. “As meninas eram apaixonadas por ele”, diz.
A habilidade com a crítica veio junto ao deslumbramento pela tela e, assim como seu cineclube era caseiro, o primeiro jornal em que publicou seus textos também era. “Eu fazia um jornal que circulava em casa e nele tinha uma parte de crítica de cinema. Depois fui expandido... A minha estreia de fato como crítico foi na coluna ‘Primeira Cena’, em 1953, no jornal ‘A Província do Pará’”, cita. Atuando em um jornal profissional, entrevistou muitas personalidades da sétima arte, entre eles o paraense Syn de Conde, astro da época dos filmes mudos.
“Eu nem sabia que existiu um paraense em Hollywood”, brinca ele. “Eu sabia que o Syn de Conde estava doente e fui vê-lo como médico [Veriano é formado em Medicina e, durante nove anos, atuou no antigo Presídio São José, hoje Espaço São José Liberto/Polo Joalheiro]. Ele estava com uma bronquite terrível. Mediquei, levei um gravador, coloquei embaixo da rede dele e comecei a conversar, mas fiquei com medo de publicar. Depois, ele foi em casa me agradecer e levou um álbum. De tudo que ele me contou eu achei tão fantasioso que pensei: ‘ele está doido’. Mas olha, o álbum era uma preciosidade, contando toda história dele e os artistas com quem contracenou nos Estados Unidos. Ele foi colega de quarto do Valentino!”, ressalta Pedro Veriano, aos risos.
Lançamento
E se não há um anjo para lhe relatar seus feitos, como no filme “A Felicidade Não se Compra”, o público pode contar com as palavras do próprio escritor, que lança no próximo dia 23, terça-feira, às 18h, no Cinema Olympia, o livro autobiográfico “O Médico Direito e o Monstro Cinematográfico”. O título é uma alusão ao filme “O Médico e o Monstro” (1941), de Victor Fleming, e narra a vida dele entre as funções de médico e a de um apaixonado pelo cinema, marcando ainda os seus 80 anos, regados pelas boas memórias dos muitos filmes que viu e ajudou o público a conhecer.
“Lances de memória acontecem muitas vezes ligados a um fato presente, mas há coisas que a gente não esquece. E é bom registrá-las de forma mais perene”, comenta Pedro Veriano sobre o livro, no qual vai mesclando fatos históricos com ricas lembranças. Entre elas, quando, apaixonado por “A Felicidade não se Compra”, decidiu escrever para o diretor do filme, Frank Capra, que lhe respondeu fazendo o convite para que fosse aos Estados Unidos assistir ao Oscar. Pedro Veriano não conseguiu ir para a premiação, mas manteve a amizade por cartas com Capra que, quando soube pelo paraense que seu filme, originalmente chamado “It’s a Wonderful Life” (“Uma Vida Maravilhosa”), chegou ao Brasil como “A Felicidade não se Compra”, lamentou não ter pensado nisso antes para ter nomeado a obra exatamente assim, mas em inglês, “Happiness can’t be Bought”.
(Lais Azevedo e Dominik Giust/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar