Com o aumento de editais para financiamento de projetos audiovisuais e de canais de TV paga com programação exclusiva, aumentou também a necessidade do roteirista no mercado. Junto com esse novo nicho, surgiram novos roteiristas atuando. E para dialogar com a turma dos mais jovens, os profissionais mais experientes viram na consultoria uma nova frente de trabalho e ao mesmo tempo uma forma diferenciada de atuar com os projetos. É o caso de Aleksei Labib, que assina os roteiros do longa “A Via Láctea”, do documentário “O Último Kwarup Branco”, e da novela “Água na Boca”, da Band.
Abib esteve em Belém para uma consultoria com o núcleo da Marahu Filmes, comandada por Fernando Segtowick e Thiago Pelaes, e já tem uma relação com outros produtores, como Jorane Castro. Para ele, que veio pela primeira vez à capital paraense no ano passado, o fundamental na atividade da consultoria é auxiliar que os projetos possam ser bem executados da maneira como seus idealizadores conceberam - sem grandes influências de seus gostos ou preferências nas produções.
“O meu trabalho varia muito, dependendo da demanda de cada projeto, mas na maioria vai para a sustentação dramatúrgica da narrativa, da coerência dos personagens, saber se a trama está bem estruturada, se ela se sustenta com os diálogos, de acordo com os personagens. Com mais de 10 anos de experiência nesse ramo, percebo que esse tipo de parceria está começando a acontecer de forma mais recorrente, para abrir possibilidades. Tento não impor a minha visão ou opinião ao material que trazem, mas sim fazê-los entender onde querem chegar com esse material e ajudá-los a chegar lá. Caso contrário estaria sendo mais produtor do que consultor”, explica o roteirista, que exerce a função desde 1995.
Ele recorda que a atividade do roteirista no Brasil era um tanto informal e baseada em favores e um pedido: “escreve para mim”. Mas com o passar do tempo e com mais recursos para o setor, é possível perceber mudanças. Ele cita também o Laboratório de Roteiro do Sesc, conduzido por Carla Esmeralda, em São Paulo, como outra iniciativa importante para os profissionais - o filme “Cidade de Deus” (2002), dirigido por Fernando Meirelles, teve seu roteiro primeiro analisado no laboratório. “É uma necessidade de se ajustar aos mercados mais profissionais, como americanos e europeus, que já utilizam esse profissional consultor de roteiro com mais frequência. Noto primeiro que, por ter mais projetos e mais prática, pelas possibilidades de financiamento, não só aumentou a quantidade de roteiros produzidos, aumentou também a profissionalização da tarefa de roteirizar. É um reflexo feliz da política de Manoel Rangel, presidente da Ancine, diz.
Escrita sob a demanda do consumidor
Atualmente, a demanda de roteirista também se expandiu para suprir a quantidade de canais disponíveis de vídeo on demand, como Netflix, GloboPlay, Fox Play, HBO Go, e das próprias operadoras de televisão a cabo, como Net, Oi e Sky. E a conexão com o público espectador está cada vez mais próxima, para que se tenham produtos audiovisuais de acordo com os gostos dos consumidores.
Aleksei Labib explica, no entanto, que esta aproximação já existia mesmo antes das redes sociais - onde a maioria comenta o que acha das séries, por exemplo.
“Isso, do ponto de vista de roteiro, de alguma forma sempre existiu, pois sempre se escreveu pensando em algum público. Mesmo na década de 1970, se considerava o público para o qual estava sendo feito o trabalho, com os elementos possíveis na época. A novela brasileira mantém diálogo direto com audiência, é uma característica conhecida mundialmente. A Netflix já produz conforme o seu algoritmo, se as pessoas buscam por coisas da década de 1980, contratam alguém para escrever com ambiente da década. Foi o caso de ‘Stranger Things’”, explica.
Ele também observa que os conteúdos de característica regional têm tido mais repercussão. “O que vejo é que tem tido valorização da diversidade cultural do Brasil, como para falar de um universo amazônico, mas pensando para um grande público. Em consultorias de outros estados também noto que essa diversidade está mais na criação dos novos roteiristas, o que acho muito positivo”, complementa.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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