Pensando sobre por quanto tempo os olhos ainda estarão fechados diante do cenário social e político do Brasil, a artista visual Lúcia Gomes iniciou esta semana mais uma intervenção artística, intitulada “É Só Uma Gripezinha? Ditadura Nunca Mais! Respeite a Saúde e Democracia Brasileira! AI-5 Não!”. Todas as imagens que compõem a série vieram a partir do pedido da artista para que voluntários fizessem fotos usando a máscara, que seria para proteção à Covid-19, nos olhos.
“A partir do isolamento social, recomendado pela Organização Mundial da Saúde, para cada família é uma situação. No meu caso, que estou em uma cidade bem pequena, Quatipuru, com um grande quintal, na casa dos meus pais, é uma situação tranquila. Eu leio muitos livros, a televisão estragou (risos), não tem computador, o que me resta é fazer arte”, brinca Lúcia, que apesar do bom humor, não consegue ignorar como a situação é grave.
“É gravíssima!”, diz ela. “E mostrou toda a fragilidade da humanidade, toda a política equivocada do capital que privilegia o lucro e não o ser humano, a qualidade de vida”, expõe. Refletindo toda essa situação “e vendo a ganância, o quão baixo os políticos podem chegar”, veio a vontade de interferir a partir de vários trabalhos artísticos, sempre tomando como referência aspectos visuais da crise que é global, mas especialmente tensa no Brasil que pede pela volta da Ditadura.
Ela diz que prefere não falar o nome do atual presidente, mas que claramente a opção de uma máscara a vendar os olhos diz respeito a ele. “Quando ele colocou a máscara nos olhos e fizeram aquela foto, muito usada pela mídia, pensei que era importante pegar essa imagem e trabalhar de forma artística, fazendo reflexões a partir desse ato falho. Esse é papel dos artistas, obra de arte não é só para decorar parede e combinar com o sofá e a cortina. O papel crucial da arte, em toda a sua história, é promover reflexões para que se avance como pessoa e sociedade”, ela aponta.
Assim, ela pediu às pessoas que realizassem uma reprodução daquela imagem e enviassem a ela ou postassem em suas redes sociais, marcando seu nome. “A interferência artística é uma técnica diferente da pintura, por exemplo. Nela, o artista interfere em determinado espaço”, explica. Ela lembra outra interferência que realizou este mês, em que enviava uma foto sua, de olhos fechados, e pedia para as pessoas imprimirem e colocarem dentro dos vasos sanitários. “Foi uma forma de relembrar um dos tipos de tortura da Ditadura Militar”, explica.
Vários artistas, produtores culturais e outros amigos e seguidores da artista nas redes sociais já enviaram uma foto reproduzindo o despreparo presidencial, e comentando sobre a atual situação do país. E Lúcia segue realizando novos projetos no isolamento. Ela adianta que pensa em algo para abordar a fome que muitas famílias têm passado pela falta de uma política eficiente de distribuição de renda durante a pandemia. “Tenho aqui dezenas de taiobas e penso em fazer algo que se relacione a isso, à fome que tem assolado tantas famílias”, diz ela.
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