Foram anunciados nesta quarta-feira, 16, os 91 selecionados na 19ª edição do Rumos Itaú Cultural, entre 11.246 projetos inscritos de todo o Brasil, em temas e modalidades diversos que vão de literatura a fotografia, de audiovisual a música, de games a patrimônio e memória. A região Norte inscreveu 530 projetos, sendo 207 do Pará. Dentre os projetos paraenses, apenas dois foram selecionados, ambos dentro da categoria “Criação e Desenvolvimento”: “As Mulheres das Cavernas”, da dupla Las Cabaças, de Santarém, e a segunda temporada da websérie “Pretas”, inscrita por Elis Tarcila Souza de Souza, de Ananindeua.
“Vamos iniciar a fase de pré-produção, fazer uma sala de roteiristas, uma nova bateria de teste de elenco para a segunda temporada. Mas a gente ainda vai correr atrás do recurso para fazer a gravação e a finalização”, adianta cineasta Joyce Cursino, que atuou como atriz e roteirista na primeira temporada e assumiu agora o projeto de “Pretas”.
“Esse é um projeto idealizado e criado pelo Lucas Moraga, um mano preto que, através de pesquisas na universidade, identificou a lacuna da presença de mulheres negras na frente e por trás das câmeras.”
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A nova etapa ocorre por meio da Negritar Filmes, produtora audiovisual de Joyce. “A gente pretende dar continuidade a essas histórias. A Negritar assumiu essa segunda temporada. Ela é uma produtora 100% formada por pessoas pretas, que estão trilhando o caminho para reverter essa estrutura de cinema racista em que estamos imersos”, afirma.
Joyce explica que já está em produção uma temporada emergencial da série, o “Pretas na Pandemia”, que deve ser lançada ainda no primeiro semestre de 2021 e contará com cinco episódios, cada um contando a história de uma mulher. A nova temporada está sendo gravada de forma inovadora e virtual, atendendo aos protocolos de segurança em saúde, além de ter sido pensada para exibição pelo IGTV do Instagram.
“Foi uma edição emergencial que a gente fez para mostrar um pouco da realidade das mulheres negras na pandemia, como é que essas mulheres, com todas as suas adversidades e suas especificidades, nesse território amazônico, são atravessadas por essa crise sanitária, já que elas já vivenciam outras diversas crises e violências”, diz Joyce.
“Pretas na Pandemia” tem coordenação da professora e pesquisadora Zélia Amador de Deus, que também atua como atriz. Uma parceria que já se renovou para esta segunda temporada da série, aprovada no Rumos. “É uma honra porque, além de ser um dos maiores nomes do movimento negro do Brasil, que representa e que leva as pautas da Amazônia negra para o resto do país, ela também é atriz, e estreia com a nossa equipe Negritar no cinema, por meio do ‘Pretas’”, orgulha-se a cineasta.
ALTER DO CHÃO
O outro trabalho vencedor também se destaca pelo protagonismo feminino e pelo interesse na região amazônica. É o espetáculo “As Mulheres das Cavernas”, das Las Cabaças, dupla formada por Marina Quinan e Juliana Balsalobre, atrizes, palhaças e arte-educadoras paulistas radicadas em Alter do Chão, distrito de Santarém, no oeste paraense.
“A gente ficou surpresa quando recebeu essa notícia! Isso dá uma certa alegria de poder continuar nosso trabalho”, comenta Juliana.
Este será o quarto espetáculo delas e irá falar um pouco sobre o início da humanidade. “Estaremos falando dessa pré-história amazônica, do ponto de vista de duas mulheres. O edital nos contempla para criar o espetáculo, ele ainda não existe, e nos garante também ensaiar e realizar algumas apresentações virtuais. Para a gente, foi importantíssimo, porque esse momento de pandemia foi um baque muito grande, paralisou todas as nossas atividades”, diz Juliana.
As duas têm uma relação com o Pará desde 2006 quando realizaram seu primeiro projeto itinerante, o “Brasil na Cabaça”, uma viagem de estudo e pesquisa prática pelos estados do Maranhão, Bahia, Ceará e Pará. “Saímos de carro, subindo o país em uma viagem de sete meses, que tinha como destino final Belém. Mas uma amiga falou ‘por que vocês não vão para Santarém?’”, relata Juliana.
Já entre os santarenos, elas foram convidadas a integrar o projeto “Saúde Alegria”, que atua nas regiões ribeirinhas do rio Tapajós. As duas precisaram voltar para alguns trabalhos em São Paulo, mas na primeira oportunidade, voltaram. “Com o Doutores da Alegria, fizemos nosso segundo projeto de um ano, por várias regiões da Amazônia e, ao fim dela, decidimos morar em Alter do Chão, em 2010”, lembra Juliana.
Na região praiana, elas inauguraram em janeiro o Galpão Las Cabaças, onde estavam dando aulas de palhaçaria e de teatro, para crianças e adultos, além de realizarem outras atividades, como música. Mas tudo foi paralisado pela pandemia, em março. “Nossos espetáculos, já criados aqui (“Devagar e Sempre”; “Dia da Caça”) são inspirados nas populações ribeirinhas, na nossa vida aqui e tudo que a gente viu e conheceu. Nossa comunicação com o público criou outra potência depois disso e a gente gosta muito de morar em Alter do Chão, de se apresentar para esse público que a gente tem muita empatia”, diz Juliana.
Negritude foi um dos temas principais desta edição
Os trabalhos desta edição do Rumos têm uma tendência de priorizar assuntos relacionados a negritude, mulheres e indígenas. “A questão da negritude [como tema] vem aumentando desde 2015. Entre os selecionados dessa edição, 40% tratam do assunto de forma bem potente”, diz Aninha de Fátima Sousa, gerente de comunicação do Itaú Cultural.
O resultado teve também um grande registro de projetos na criação em literatura, audiovisual – com destaque para filmes de animação – e música, HQs, artes visuais e arte&tecnologia, além de trabalhos de cênicas, entre teatro, dança e circo.

Mas para chegar até aí, a curadoria do programa teve que lidar com as adversidades provocadas pela pandemia do Covid-19, que tornaram mais complexa a etapa de análise e escolha dos projetos. Em um primeiro momento, a seleção foi adiada. A retomada dos trabalhos – em reuniões on-line e não mais imersivas –, manteve as diretrizes contidas no edital para as avaliações, mas com a preocupação de contemplar projetos que se adequassem às atuais exigências sanitárias.
“Foi um desafio, tem projetos que exigiam presença, circulação, a troca, a gente sabe que estar lá é parte do processo de criação, não só de modo virtual. Tinha projetos que mapeavam as manifestações regionais... como mapear isso pela internet num Brasil tão diverso? Temos uma desigualdade digital que se apresentou de maneira mais dramática nesse período, 40% da região Norte tem dificuldade de acessar a internet”, lembra o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.
“Tivemos projetos de uma tribo indígena ir para outra tribo. Nós tivemos, sim, que entrar em contato com as pessoas, com mais pessoas que selecionamos inclusive, na perspectiva de diálogo, para ver se conseguiriam transitar para o virtual. É impossível um projeto que pedia apoio para ir a campo. Uma coisa é certa, nós temos um aprendizado acumulado, que no próximo edital será bastante diferente do atual, até pela experiência que tivemos nos editais de emergência, frutos desses novos aprendizados”, relata o diretor.
Os mais de 11 mil projetos foram examinados primeiramente por 40 avaliadores, contratados pela instituição entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país. Nesta etapa, as propostas tiveram quatro leituras de avaliadores diferentes, uma delas de um especialista da área. Em seguida, as propostas selecionadas passaram por nova análise da Comissão de Seleção – também multidisciplinar e formada por 23 profissionais - até a fase final de reuniões virtuais.
PODCAST
Rumos Possíveis
Nesta quinta-feira, irá ao ar o primeiro de seis episódios do podcast Rumos Possíveis. Uma vez por semana – com exceção da última deste ano –, Aninha de Fátima, gerente do núcleo de Comunicação e Relacionamento do Itaú Cultural, conversa com uma dupla de membros da Comissão de Seleção do Rumos 2019-2020. Hoje, a conversa é com a escritora e professora de escrita e literatura Noemi Jaffe e o músico fundador da Orquestra Ouro Preto, Rodrigo Toffolo. Os episódios podem ser acompanhados pelo site.
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