Quando o grande “Live Aid” ocorreu, em 13 de julho de 1985, com nomes como Mick Jagger, Keith Richards e David Bowie, assim determinando a data como o Dia Mundial do Rock, Serja Harris já era uma fã de heavy metal, que tinha curtido todos os shows do primeiro “Rock in Rio”, alguns poucos meses antes, e se orgulhava de ter crescido ao som de nomes como Chuck Berry, Elvis Presley e Little Richard.
“Comecei a gostar de rock por causa do meu pai [Milton Wallace], ele era filho de americano e já veio com o rock na veia. Como ele ouvia muito rock’n’roll antigo, tomei gosto. Indo pra adolescência, conheci o heavy metal... Viajei muito, conheci várias bandas; veio o ‘Rock in Rio’ em 1985... o que me mexeu muito foi o AC/DC, o sino que eles levaram pro palco fez um barulho ensurdecedor, uma coisa de louco”, conta. Daquela noite, ela ainda traz na memória Ozzy Osbourne e a banda sensação do momento, Iron Maiden.
Com o “Vol. 4” do Black Sabbath, ela andava o dia inteiro, até na escola. “Aquilo era ouro pra mim! E eu tinha só uma amiga no colégio que gostava. Era praticamente só eu de mulher. Eu fiz algumas participações em bandas, nos anos 1980, e para o pessoal foi uma coisa de outro mundo, ‘uma mulher numa banda de heavy metal!’. Agora não, até minha filha, Thyrza, é vocalista de uma banda (Surto), agora as mulheres estão criando seu espaço”, orgulha-se Serja.


Para quem circula pelos shows e festivais em Belém é difícil não encontrar Serja “dando um rolê” com os filhos, todos criados para serem roqueiros. “Com 60 anos, continuo ouvindo as mesmas coisas, andando com as minhas camisas de banda. Tem quem pergunte: ‘tu tem outra roupa?’”, brinca. E isso faz dela uma cliente de peso para a Distro Rock, a loja do produtor André “Bocão”, outro reconhecido fã de rock na cidade.
“Com uns 13 anos, descobri Led Zeppelin. Estou com 45 e continuo envolvido na música. Eu comecei com venda de CD, abri a loja, comecei a organizar shows, lançar bandas; acabei de lançar a Inferno Nuclear (banda local)”, orgulha-se. Ele também lembra que ser fã de rock anos atrás era outra realidade. “Não tinha internet, rede social, era tudo via catálogo para conhecer uma banda. No disco, olhava todo o encarte porque tinha agradecimento para outros artistas, via os nomes e procurava os discos deles também”.
A loja dele, com 15 anos de existência, se tornou ponto de encontro e referência para quem busca novidades. “Aqui a gente bate papo, empresto um livro, um CD, vai criando um ciclo legal. Como é uma referência, vem gente de outros estados, bandas de fora”, diz Bocão.
Outra forma que ele encontrou de difundir o rock para novas gerações é criar e distribuir gratuitamente, uma vez por mês, posters de artistas que deixaram um legado. Para este 13 de Julho, será o poster de Ronnie James Dio, ex-frontman das bandas Rainbow, Black Sabbath e DIO.
MOTO-CONTÍNUO
E sempre tem uma nova geração interessada em conhecer essas referências, assim como os roqueiros que nunca deixam de frequentar o local em busca de novidades. “Quando comecei a gostar de rock independente e falava com amigos, sempre pensava ‘como você não conhece essa banda?’. Eu sempre quis falar sobre isso e, aos 12 anos, surgiu a ideia de criar um site, para falar de música e mostrar o que eu gosto para os outros”, conta Mari Tavares, 16, do “Iara Alternativa”, blog em que ela traz opções da cena local como Molho Negro, Noturna e Dois na Janela.
Assim como ela, que ainda tão jovem gosta de circular por essa cena local, muitos fãs de rock ficam na ansiedade para que o próximo 13 de Julho seja marcado pelo retorno à beira dos palcos. “Eu tô ansioso para que voltem os festivais, circuitos, o Setembro Negro (SP), que já anunciaram que não vai ter de novo [este ano] e é tradicional, sempre vou com um grupo de amigos. A gente já vai guardando dinheiro, até para eventos fora do Brasil”, projeta Elton Loureiro, 41, que despertou para o rock diante da apresentação de Judas Priest na TV. “Foi impactante, pra cabeça de um moleque de 11/12 anos!”, lembra.
Desde então o rock tem sido uma constante na vida dele também. “Diariamente. E hoje está presente com mais informação, mais acesso pela internet, Spotify, lojas de disco, sou colecionador de mídias físicas, uma coleção que boa parte é formada por rock e seus subgêneros. Antes do caos pandêmico, participava da organização de eventos, até junto com o André [Bocão], frequentava eventos de amigos, ia ver bandas e ia nos bares de amigos, reunia em casa para ouvir vinis. O rock para gente era toda uma rotina”.
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