ENTRE VIDAS E VARAIS

Artista paraense muda paisagens de Veneza com exposição

Natural de Belém, a arquiteta e artista visual Jaq Lisboa segue com exposição em varais na turística cidade de Veneza. Uma campanha de financiamento coletivo segue em aberto também. Saiba mais e colabore!

terça-feira, 21/09/2021, 08:36 - Atualizado em 26/09/2021, 11:58 - Autor: Enderson Oliveira


A fisionomia de Veneza, na Itália, está sendo modificada com uma grande exposição a céu aberto da paraense Jaqueline Lisboa.
A fisionomia de Veneza, na Itália, está sendo modificada com uma grande exposição a céu aberto da paraense Jaqueline Lisboa. | Foto: Ilaria Salvagno

Uma subversividade sutil, que instiga novas percepções do espaço urbano e transforma varais – sim, varais de roupas! – de uma das mais famosas e turísticas cidades da Europa em uma grande e interessante galeria a céu aberto, faça chuva ou faça sol. Curioso, não é mesmo? Pois tudo isto é feito por uma paraense: a arquiteta e artista Jaqueline Lisboa, idealizadora do projeto Sestiere di Venezia.

Contando com a curadoria e apoio da artista visual alemã Jana Doell, o projeto nasceu a partir da necessidade de se divulgar arte no período pandêmico, em que os museus permaneceram fechados. Mais que isso: ao expor obras de cerca de 45 artistas, de diversos países, em varais de diferentes residências de Veneza, o projeto visa aproximar pessoas, ideias, trabalhos e espaços, até mesmo virtualmente, já que a “exposição” pode ser acessada via internet. Varais, vidas e vozes se interconectam em uma nova forma de “galeria”, em que o público também é diverso.

 

A paraense Jaqueline Lisboa (à frente)
A paraense Jaqueline Lisboa (à frente) | Foto: Ilaria Salvagno.
 

“Para mim, existem três tipos de público: quem hospeda a obra; quem sabe do projeto e tem acesso ao mapa e site e vai dar uma volta em busca das obras pela cidade e, por fim, pessoas ao acaso que passam pelas ruas, canais, jardins, pátios e que podem supor que as peças sejam obras de arte, mas não têm uma confirmação. Talvez o público mais importante aqui sejam as pessoas que hospedam as obras. Elas podem tocar na obra de arte, que ficam expostas ao sol e podem pegar chuva. Se uma tempestade as levar, elas não serão responsabilizadas por nada”, explica Jaq Lisboa.

Ainda de acordo com a paraense, “o projeto busca se apropriar da cidade, com uma subversividade sutil, diria eu, porque se aproxima dos seus habitantes para poder ter a permissão de usar espaços privados (varais a céu aberto nas fachadas das casas), principal forma de roupas pegarem sol ou serem arejadas”, sintetiza.

Apesar da imagem quase “idílica” de Veneza, a cidade possui grandes problemas estruturais e, também, no modo como ocorre seu planejamento urbano. “Veneza, ainda que aparentemente muito pomposa, não governa para as pessoas que vivem nela. Turistas são prioridade e muitas pessoas se sentem ‘largadas’. Existem muitos espaços culturais organizados por cidadãos comuns, que não são ajudados pelo governo. A gentrificação é muito presente. Projetos como estes possibilitam ver a cidade e as pessoas que moram nelas com outros olhos”, analisa Jaq.

ENTRE OBRAS E VIDAS

Expor na Europa, de forma independente e utilizando espaços residenciais que, ao mesmo tempo, são públicos, obviamente não é tarefa simples. Neste processo, entrecruzam-se as obras, o objetivo da exposição e, também, a própria trajetória de Jaqueline.

“Me perguntei antes de começar se eu realmente queria correr o risco de ser tratada mal por procurar varais. Era um medo que eu tinha. Apesar do receio, encontrei pessoas muito abertas e, através do projeto, posso falar de temas relevantes. Posso também expor a situação de artistas, principalmente pessoas como eu, negras e migrantes. Ao mesmo tempo, saio da minha ‘cápsula’ de turista e me deparo com uma realidade que não seria possível de ver sem ter que morar anos na cidade. O projeto agilizou o meu processo de integração com Veneza. Eu entro nas casas das pessoas, elas me contam suas histórias e perguntam as minhas e dos artistas”, informa a paraense que está na Itália desde fevereiro de 2021.

O público pode conhecer, então, obras de artistas, sendo a maioria mulheres, de diferentes países. Há também um representante do Pará. “No Sestiere somos cinco brasileiros: além de mim, Angela Camara Correa, Marina Witt e Domingos de Barros Octaviano, que vivem na Alemanha, e Mauricio Igor, que mora em Belém. Junto com o mexicano Alejandro Manzanero, por questões de custos e devido a pandemia, eles dois são os únicos que não residem na Europa. Nós nos comprometemos a imprimir pelo menos as obras de dois artistas”, destaca Jaq.

"Há algum tempo que venho trabalhando em minhas produções pesquisas que relacionam arte e sociedade. Produções artísticas que não se limitam a galerias e espaços culturais, mas que interferem diretamente nas ruas. Por isso, fiquei bem feliz com o convite em fazer parte da Sestiere di Venezia, tendo um trabalho que mostra sobre gambiarras como uma prática cultural na Amazônia, atuando como uma intervenção urbana em Veneza", comenta Mauricio.


O projeto segue até dia 26 de setembro, quando ocorrerá a finissage na “Casa Punto Croce”, em parceria facilitada por Tobia Yaquelí (TobYa), que integra o coletivo cultural responsável pelo espaço.

TRAJETÓRIA

Jaqueline Lisboa saiu de Belém em 2005, aos 22 anos. Na capital paraense, começou a estudar Arquitetura e concluiu seus estudos na Alemanha, onde mora há 15 anos. Em 2020, se formou em Artes. Antes de migrar, aqui em Belém, ela já trabalhava com desenho e pintura. Atualmente, utiliza a experiência com desenho para projetos e, artisticamente, trabalha com performance, figurinos e instalação, destacando temas como identidades e migrações.

 

| Foto: Ilaria Salvagno.
 

É com esta experiência e repertório, sem deixar de lado as origens, que “nasce este projeto, também da vontade de que eu, pessoa do Norte do Brasil, migrante, mulher negra, ‘encontre’ uma pessoa que eu buscava. Procurei uma pessoa com uma história e características como as minhas no meio das artes e, principalmente, na curadoria e não encontrei com facilidade. Eu decidi, então, que eu seria essa pessoa, porque cansei de só ver referências masculinas, de pessoas do sul, brancas”, sintetiza a artista.

FUTURO

Pensar, produzir e divulgar arte sempre foi um grande desafio. Neste período pandêmico, como vivemos desde 2020, isto se torna ainda mais complexo. Apesar deste contexto, Jaq Lisboa antecipa que ações semelhantes podem ocorrer em outros países da Europa e não descarta a possibilidade de Belém também produzir algo.

Sobre a capital paraense, ela afirma que “é possível fazer algo parecido, no sentido de observar o que o espaço público de cada cidade tem a oferecer e, então, a partir daí, trabalhar”. Indo além, tal como uma profissão de fé para o porvir da arte, ela destaca que espera que, após a pandemia, “o mundo da arte se descolonialize, que acabe essa história do gênio artista, pois isso não existe. Isso é uma construção! Um artista que vende uma obra caríssima não é necessariamente melhor que um que não a vende pelo mesmo preço ou que não expõe em espaços ‘de prestígio’. Espero que artistas se unam mais e formem grupos fortes com estratégias para executar sua profissão de forma saudável. Espero também que a arte seja mais valorizada como uma profissão. Nós que fazemos arte a fazemos por uma necessidade devemos ser pagos por isso. O caminho do artista não é somente diversão, envolve muita dedicação, responsabilidade e implica em muitas consequências também. Espero que pessoas que fazem arte possam viver de suas atividades”, finaliza.

COLABORE!

O projeto Sestiere di Venezia possui uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo), que visa arrecadar € 2 mil para custeio da infraestrutura e organização da “exposição”. Até o momento foram arrecadados 580 euros.

A campanha segue até o dia 25 de setembro e as doações podem ser feitas em diversas moedas, inclusive reais. Acesse e contribua: https://www.leetchi.com/c/sestiere-di-venezia

SERVIÇO

Exposição urbana Sestiere di Venezia: pessoas + arte + varais em Veneza (Itália), idealizada e organizada pela paraense Jaq Lisboa.

Quando? Até 26 de setembro, em diversas residências de Veneza.

Contribua com a campanha: https://www.leetchi.com/c/sestiere-di-venezia

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