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Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial 

Feirantes apresentam ao IPHAN pedido para reconhecer como patrimônio cultural imaterial os saberes, práticas, costumes e modos de fazer.

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Imagem ilustrativa da notícia Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial  camera Feirantes mantêm diariamente saberes, costumes e tradições que fazem do Ver-o-Peso um espaço com potencial para o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial. | Jader Paes / Agência

Antes mesmo de o sol nascer, o Ver-o-Peso já está em movimento. A chegada do pescado e do açaí, a preparação dos alimentos, a comercialização de ervas, temperos e produtos amazônicos e a relação entre feirantes e frequentadores fazem parte de uma rotina que atravessa gerações. É essa cultura viva, construída no cotidiano, que os trabalhadores querem ver reconhecida como patrimônio cultural imaterial, a partir do pedido apresentado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

A discussão vai além das estruturas que formam o complexo histórico. O Ver-o-Peso já é marcado por construções que ajudam a contar a história de Belém, como o Mercado de Ferro, o Mercado Municipal, o Solar da Beira, a Praça do Relógio e a Praça dos Estivadores. Mas, para o professor e historiador Márcio Neco, existe outro patrimônio que não pode ser separado desse cenário: aquele produzido pelas pessoas que trabalham e circulam pelo local.

“Uma característica de um patrimônio cultural material é o físico, a edificação, a cultura materializada em algo concreto. E o patrimônio imaterial são as culturas, os costumes, os conhecimentos, a criatividade que é desenvolvida em determinado espaço”, explica.

O professor e historiador Márcio Neco
📷 O professor e historiador Márcio Neco |( Divulgação)

Segundo Neco, o Ver-o-Peso reúne essas duas dimensões. As edificações fazem parte do patrimônio material, enquanto as práticas desenvolvidas diariamente pelos trabalhadores representam uma dimensão imaterial que continua sendo construída e transmitida.

Saberes que estão no cotidiano

Entre os elementos que podem sustentar a importância do reconhecimento estão conhecimentos que fazem parte da rotina da feira. O historiador destaca os saberes relacionados às ervas e aos produtos naturais da Amazônia, além das técnicas utilizadas pelos trabalhadores para preparar, conservar, apresentar e comercializar os produtos.

“A forma como aquelas pessoas, aqueles trabalhadores, desenvolvem as técnicas para sua venda, como também o preparo dos seus produtos, o descascado da castanha, o carregamento dos peixes, a produção dos alimentos, do próprio açaí, do peixe frito”, exemplifica.

Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial 
📷 |( Foto: Irene Almeida / Diário do Pará)

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Para ele, esses conhecimentos não estão isolados. Eles se misturam à culinária, aos temperos, às formas de atendimento e às estratégias utilizadas pelos próprios vendedores para apresentar os produtos aos consumidores.

“O saber ancestral, porque ele vem da utilização das ervas naturais do nosso estado, e um outro que eu colocaria são os saberes da culinária, o tempero”, afirma.

A maneira como os trabalhadores recebem os clientes e conduzem as vendas também faz parte dessa dinâmica. Neco compara o espaço a um grande encontro de técnicas desenvolvidas pelos próprios feirantes.

“As técnicas de vendas que tornam também o Ver-o-Peso um verdadeiro encontro das técnicas de marketing, onde ali os trabalhadores desenvolvem a sua maneira de acolher, de apresentar seus produtos e finalizar também as vendas”, explica.

Fé e manifestações culturais

A cultura presente no Ver-o-Peso também passa pela religiosidade. O comércio de artigos religiosos e a relação do espaço com manifestações tradicionais de Belém fazem parte dessa identidade.

Neco cita, entre outros exemplos, a presença de imagens religiosas e a relação do mercado com o Círio de Nazaré.

“Pegue, por exemplo, as práticas religiosas, a venda dos produtos de artigos religiosos, nas imagens de Nossa Senhora de Nazaré, na relação que o Círio tem com o local”, destaca.

O historiador também chama atenção para outro aspecto que vem ganhando espaço no cotidiano do complexo: as manifestações artísticas.

“Recentemente eu tenho percebido, nas minhas pesquisas, que o Ver-o-Peso tem sido um palco a céu aberto de inúmeras intervenções e atividades artísticas”, afirma.

Segundo ele, o local tem recebido pessoas que utilizam o espaço para apresentações, personagens, danças e coreografias, transformando o mercado em uma espécie de cenário cultural aberto.

Feirantes são fundamentais para manter a tradição

Se os prédios ajudam a contar a história do Ver-o-Peso, são os trabalhadores que mantêm muitas das práticas vivas. Para Márcio Neco, os feirantes ocupam uma posição central nesse processo. “Eu diria que os feirantes são a alma do Ver-o-Peso”, afirma.

O historiador destaca que muitos trabalhadores estão no local não apenas por uma questão profissional, mas também por uma tradição familiar. São conhecimentos que passam de pais para filhos e continuam sendo praticados diariamente.

“Um grande número de pessoas está lá desenvolvendo a sua atividade profissional não só como principal ferramenta de sustento das suas famílias, mas uma herança que receberam de pais”, explica.

Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial 
📷 |( Foto: Irene Almeida / Diário do Pará)

Na avaliação dele, retirar essas atividades do espaço significaria comprometer parte importante daquilo que faz o Ver-o-Peso ser reconhecido como um lugar de vivência cultural.

“Se esses feirantes não estivessem lá, seria talvez um local, um patrimônio material apenas de visitação e não de vivências”, ressalta.

Muito além das edificações

A discussão sobre a preservação do Ver-o-Peso também envolve a maneira como o espaço será pensado para o futuro. Para Neco, a conservação não deve considerar apenas a paisagem e os prédios históricos, mas também as atividades que acontecem dentro deles.

“Nós ouvimos sempre ideias como retirar as vendas e fazer daquele lugar apenas colocando alguns barcos. Não. O Ver-o-Peso não se constitui somente pela sua paisagem”, afirma.

Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial 
📷 |( Agência Pará)

O historiador reconhece a importância da conservação da estrutura física, mas defende que ela esteja acompanhada da preservação das práticas culturais.

“A paisagem é muito importante preservar, cuidar, limpar, mas o Ver-o-Peso também tem seu valor não só como patrimônio material, mas imaterial, por conta das atividades que são desenvolvidas naquele espaço”, explica.

Para ele, o mercado funciona como uma espécie de vitrine da cultura paraense e amazônica. É no contato diário entre trabalhadores, produtos e visitantes que muitos desses conhecimentos continuam sendo apresentados às novas gerações.

Um mosaico da cultura amazônica

Na avaliação do historiador, o valor cultural do Ver-o-Peso ultrapassa o período de existência das atuais edificações. “O Ver-o-Peso é um grande mosaico da cultura da Amazônia”, define.

A importância, segundo ele, está também no fato de que costumes, tradições e conhecimentos podem ser mais antigos do que as próprias construções que hoje formam o complexo.

“As atividades, os costumes, as tradições, a cultura, ela é muito mais antiga do que as edificações”, afirma.

Nesse sentido, o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial pode contribuir para que essas práticas sejam preservadas e continuem acessíveis às próximas gerações.

O desafio de preservar sem apagar a identidade

A preservação, porém, não significa manter o espaço completamente distante das transformações da cidade. Para Márcio Neco, um dos principais desafios é encontrar um equilíbrio entre modernização e manutenção da identidade cultural.

“O segredo é harmonizar a modernidade com os nossos costumes, com a cultura, e com todas as edificações, com todas as atividades que ocorrem”, avalia.

Ele defende que decisões sobre o futuro do Ver-o-Peso sejam construídas a partir do diálogo entre diferentes setores.

“Reunir todas essas pessoas e tendo como ponto comum o amor e a preservação de toda a cultura que é produzida naquele espaço”, afirma.

Para o historiador, esse diálogo precisa envolver trabalhadores, frequentadores, pesquisadores, historiadores, especialistas, associações e o poder público. A ideia é que a preservação considere não apenas o patrimônio físico, mas também a identidade construída por quem mantém o Ver-o-Peso em funcionamento.

Afinal, o patrimônio cultural imaterial não está parado no tempo. Ele continua sendo produzido a cada madrugada, no preparo de um alimento, na venda de uma erva, no conhecimento sobre um produto amazônico, no tempero de uma comida, na relação entre feirante e cliente e nas tradições que passam de uma geração para outra.

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